A Trinity Racing chegou à Volta a Portugal com o estatuto de equipa mais jovem do pelotão. Com uma média de idades de 20 anos, o grande objetivo é a formação, mas com olhos postos em possíveis vitórias. No carro está um nome bem conhecido do ciclismo e que por cá faz a sua estreia como diretor desportivo: Pete Kennaugh.

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Encontramo-lo atento a todos os pormenores antes da primeira etapa. Não estava habituado a ter de se preocupar com logística e a toda uma organização que deixe os ciclistas apenas concentrados em competir. Foi este lado, de atleta, que viveu durante muitos anos, pois estamos perante um dos rostos do projeto Sky, quando este foi para a estrada em 2010.

Homem da pista, medalhado olímpico, mas também bicampeão nacional de estrada, acabaria cedo a sua carreira, reencontrando agora a paixão pela modalidade como diretor desportivo de uma estrutura que quer tornar-se uma referência na formação de jovens ciclistas.

“É tão diferente ser diretor desportivo! Há muita de organização e logística. Como ciclista não se faz ideia de tudo isto. Fiz uma corrida na Bélgica [no carro], mas ia com o Ian Stannard, que me mostrou como as coisas funcionam. Ele é o diretor principal”, explicou ao GoRide.pt.

Sim, o nome não engana, Stannard é mais um ex-Sky que está envolvido na Trinity Racing.

Será um processo de aprendizagem para mim e para os ciclistas. Temos corredores com mais experiência, que sabemos que têm capacidade para ganhar corridas.

Ensinar e aprender

Com 33 anos, Kennaugh é um também ele um jovem, mas entre os diretores desportivos.

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“É a minha primeira corrida na função. Por isso, será um processo de aprendizagem para mim e para os ciclistas. Temos corredores com mais experiência, que sabemos que têm capacidade para ganhar corridas e já vimos isso no prólogo, com bons tempos”, salientou.

E, horas mais tarde, Oliver Rees confirmou o esperado dele. Depois de um terceiro lugar no prólogo, foi segundo na primeira etapa, mantendo a camisola branca da juventude. É terceiro na geral a nove segundos do líder Rafael Reis (Glassdrive-Q8-Anicolor), com Max Walker a ser sétimo, a 13.

Kennaugh afirmou que não ficou nada surpreendido com as prestações iniciais. Mas o que se segue quando chegar a montanha já este domingo… Isso é uma incógnita, pelo que evita falar em, por exemplo, lutar pela camisola branca.

“Temos o Camilo Gomez [colombiano de 19 anos], um homem para as subidas. Vai ser para mim, como diretor, uma corrida de descoberta e vamos pôr a pressão nos momentos certos, mas também retirá-la em certos dias”, referiu.

Ou seja, todos estarão num processo de aprendizagem, estejam na bicicleta ou no carro.

Uma fonte importante

Kennaugh não conhece o percurso da Volta a Portugal, mas considera-a uma boa corrida para que os seus jovens ciclistas possam evoluir. Afinal será a mais longa que alguma vez fizeram.

Torre, Senhora da Graça, são subidas que já sabe serem difíceis. Como? Teve uma boa fonte de informação: “O meu irmão [Tim Kennaugh] já aqui esteve com a JLT Condor, por isso, conheço as histórias.”

“Teremos de ver como eles estarão comparativamente aos puros trepadores na montanha. Sabemos que conseguem aguentar. Depois da etapa de domingo [da Torre] continuamos ou começamos uma nova corrida”, afirmou, referindo-se à possibilidade de reformular objetivos dependendo da prestação na Serra da Estrela.

O projeto

A Trinity Racing é muito mais que um projeto de ciclismo de estrada. No seu plantel estão atletas de várias vertentes e de diferentes nacionalidades.

“O dono da equipa é o Andrew McQuaid, um empresário de grandes nomes, como o Tom Pidcock. Acho que para ele é sobre a paixão que tem pelo ciclismo. Ele adora trabalhar com jovens e ajudá-los a chegar a profissionais”, começou por realçar Pete Kennaugh.

Foto: Trinity Racing (Facebook)

E deixou o mote: “É um grande projeto e espero que continue a crescer todos os anos. Queremos ser uma referência [na formação], ser aquela equipa que os ciclistas querem ir para serem profissionais.”

Explicou ainda a presença na Volta a Portugal: ” Esta é essencialmente uma equipa de desenvolvimento. O nosso objetivo é ganhar corridas, mas também preparar os ciclistas para o futuro. A Volta a Portugal é, para mim, uma excelente corrida e será a prova mais longa que eles farão. É um bom passo entre sub-23 e corridas profissionais. Estamos muito entusiasmados.”

Recuperar a paixão pelo ciclismo

Pete Kennaugh foi dos primeiros ciclistas a chamar a atenção para a importância da saúde mental. Começou por fazer uma paragem na carreira. Então já se tinha mudado para a Bora-Hansgrohe. Acabaria por colocar um ponto final em 2019, a meio da temporada.

Regressar como diretor desportivo é também um sinal de como recuperou a paixão pela modalidade.

“Precisei de tempo, não só da competição, mas da modalidade em si, para refletir o que queria da minha carreira. Trabalhei para a televisão na Volta a França nos últimos três anos e isso foi bom.

Vi a corrida de uma perspetiva diferente, o que significa para os fãs, para todos os envolvidos que fazem com que a corrida aconteça.

Kennaugh com a camisola de campeão nacional (Foto: Gyrostat/Wikimedia Commons)

Com tudo isso, regressou o amor pelo desporto. Quando vês na Volta a França, famílias com crianças nas bermas da estrada às nove da manhã, à espera durante seis horas… Percebemos que não é só sobre os ciclistas, é sobre o desporto e o que traz ao país”, frisou.

Para mim, ser júnior e sub-23 é como a universidade do ciclismo. É agora que tens de aproveitar e divertir-te.

Sabendo bem como é essencial o equilíbrio mental e físico, Kennaugh faz o que pode para transmitir isso aos ciclistas que agora sonham com o profissionalismo: “Para mim, ser júnior e sub-23 é como a universidade do ciclismo. É agora que tens de aproveitar e divertir-te. Passa rápido, e de repente, é um emprego.”

Porém, admite igualmente que não há muito mais que possa dizer.

“Eles estão com muito entusiasmo e tem agora acesso a tanta informação. Para mim, o conselho que lhes posso dar é viver no presente. Há tantos preocupados com o que vem a seguir, quando vou ser profissional, qual é a próxima corrida… Esta é a primeira etapa da Volta a Portugal. Está atento [a ela], aproveita o momento e não dês nada como garantido”, aconselha.

A renovação na Ineos Grenadiers

Era quase irresistível não falar um pouco sobre a Ineos Grenadiers, a antiga Sky. Pete Kennaugh não escondeu a felicidade por ter visto Geraint Thomas subir novamente ao pódio da Volta a França, ele que é um dos resistentes dos que iniciaram o projeto em 2010.

Penso que dentro de poucos anos vamos ver novamente grandes coisas da Ineos e como estão a evoluir como equipa.

“Fiquei tão feliz por ver o ‘G’ no pódio. Todos quase que o metem um pouco de lado. A equipa assina com novos ciclistas, mas é muito bom ver que é o ciclista que está lá desde 2010 que consegue o pódio [terceiro lugar].”

A Ineos Grenadiers está novamente a apostar mais em britânicos, tendo Tom Pidcock como uma das estrelas em ascensão, assim como Ethan Hayter – nome bem conhecido para quem segue a Volta ao Algarve – e assinou agora com o irmão, Leo Hayter.

“Tiveram de reformular a equipa. Acho que o que fizeram ao assinar estes jovens britânicos é mais a pensar num projeto a longo prazo. Já se vê que está a acontecer lentamente, mas penso que dentro de poucos anos vamos ver novamente grandes coisas da Ineos e como estão a evoluir como equipa.

Quando a estrutura começou para ganhar a Volta a França, era um projeto a cinco anos. Obviamente que iria haver um período de transição quando acaba e como que se começa uma nova equipa. Acho que é o que estamos a ver”, disse.

Mas a Ineos Grenadiers é outro mundo. Para Pete Kennaugh o importante é a Trinity Racing e ter a possibilidade de ver ciclistas da equipa chegarem longe. Um dia de cada vez e, neste momento, com o foco numa possível vitória de etapa Volta a Portugal, para uma estreia em grande de Kennaugh como diretor desportivo.


Foto principal: Elisabete Silva/GoRide.pt

Restantes fotografias: Agnelho Quelhas e Fernando Correia/Podium Events

 

 

 

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Elisabete Silva
Quando uma vasta experiência em jornalismo se junta a uma paixão imensa por bicicletas, o resultado é como música para os ouvidos do mais curioso ciclista. E é isso que esta mestre da modalidade acrescenta ao projeto GoRide.

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