Kyle Murphy é um ciclista que gosta de Portugal. Afinal foi por cá que conquistou duas sensacionais vitórias em 2021 na Volta. Está de regresso e com uma camisola muito especial: a de campeão nacional dos Estados Unidos da América. Se já o víamos sempre bastante sorridente, agora então…

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Neste arranque de Volta a Portugal – foi 15º no prólogo, a 17 segundos de Rafael Reis -, o corredor da Human Powered Health mostra-se entusiasmado e, claro, com uma motivação extra depois da conquista nos Nacionais em junho, em Knoxville.

Foto: Human Powered Health (Facebook).

Mas não pensa só nele. Quer mostrar aos companheiros que ainda não fizeram a corrida portuguesa não só as famosas subidas como a Senhora da Graça – que diz com uma pronúncia quase perfeita -, mas também a cultura e… os pastéis de nata. E sim, também se esforça para dizer em português!

Na edição passada, Murphy venceu em Castelo Branco (segunda etapa) e na Serra do Larouco (oitava). Das duas vezes, aproveitou fugas bem sucedidas para triunfar. Quer tentar repetir a receita de sucesso, assumindo-se como homem de fugas, mas atento caso surja a possibilidade de alcançar algo mais.

Os festejos da vitória em Knoxville (Foto: Human Powered Health).

“Viemos com uma boa equipa. Alguns ciclistas já fizeram a Volta, para outros é a primeira vez. Estamos entusiasmados por partilhar a corrida com eles, a cultura… os pastéis de nata”, começou por dizer ao GoRide.pt.

“E também o tempo muito muito quente, a Senhora da Graça e todas as coisas que tornam esta corrida especial. Há um sentimento muito bom na equipa e esperamos conseguir mais alguma vitória”, acrescentou.

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Prefiro as fugas, mas se uma oportunidade surgir para algo mais, tens de aproveitar. Isso é certo!

Quando se fala de pensar eventualmente na geral: “Temos de ver. É uma corrida tão longa! É ir dia a dia. Pessoalmente acho que lutar por etapas é mais divertido, mais calmo… Mas vamos ver. Prefiro as fugas, mas se uma oportunidade surgir para algo mais, tens de aproveitar. Isso é certo!”.

A mentalidade que resulta em vitórias

Este instinto de agarrar as oportunidades que lhe aparecem tem sido parte da receita de sucesso neste último ano do ciclista de Palo Alto, Califórnia. Foi o que fez nos Nacionais e também recorda como ganhou em Castelo Branco, aproveitando uma fuga que chegou a ter quase oito minutos de vantagem.

É em fugas que Kyle Murphy mais gosta de andar para tentar vencer (foto: Agnelo Quelhas/Podium).

Ser campeão nacional é algo que o deixa orgulhoso e satisfeito por ter conseguido algo tão importante num desporto que realça ser tão complicado vencer.

“Fiquei tão feliz. Estava lá a minha família, a minha companheira e os meus dois filhos e foi tão divertido estar lá, celebrar, aproveitar aquele sentimento tão bom”, realçou.

Queremos acreditar que é possível ganhar, mas é tão difícil no final! Mas estava mesmo com boas pernas naquele dia [no Larouco]!

Questionado se partiu com o objetivo de ganhar – em 2021 havia sido terceiro classificado -, Kyle Murphy respondeu que é algo que sempre quis acreditar ser possível: “Acho que sabíamos que tínhamos de ganhar como equipa. Tínhamos uma equipa muito forte. No fundo, queres sempre acreditar, mas a corrida é tão difícil. Contudo, como disse, se tens a oportunidade, tens de aproveitar.”

Foto: Rafa Gomez/SprintCyclingAgency.

Antes de se olhar para as etapas da Volta a Portugal que aí vêm, “regressa-se” à Serra do Larouco, subida que testa o mais resistente dos trepadores e que este ano não faz parte do percurso, ao contrário da chegada a Castelo Branco, que se repete no sábado.

“Lembro-me que estava calor e que era muito bom estar na frente da corrida. O pelotão estava muito agressivo naquele dia. Na subida antes, muito inclinada, conseguir ter tempo [de vantagem] e poder subir [o Larouco] num ritmo mais calmo, foi muito bom. No final… queremos acreditar que é possível ganhar, mas é tão difícil aquele final! Mas estava mesmo com boas pernas naquele dia!”

As etapas que tem debaixo de olho

É certo que a Human Powered Health (novo nome da Rally Cycling) quer novamente ter protagonismo na Volta a Portugal. Murphy refere desde já duas etapas que lhe agradam: a de sábado e a de segunda-feira, que termina em Viseu, antes do dia de descanso.

Foto: Agnelo Quelhas/Podium.

Explicou porquê: “Antes e depois da Torre [tirada de domingo], acho que os candidatos à geral vão estar a poupar as pernas. Essas etapas serão boas oportunidades.”

Mas será que a equipa não pensa em tentar ganhar na mítica Torre? “Nós queremos ganhar, não interessa onde. Nós podemos escolher os dias em que os portugueses não estão tão interessados. Eles estão preocupados com a Torre e nós podemos ir atrás [das vitórias] antes ou depois.

Parece que a Senhora da Graça mexe mais com Kyle Murphy: “Claro que se puderes ganhar na Senhora da Graça… Isso seria… Teríamos de nos mudar para Portugal com a família. Seria uma loucura! Mas acho que não vão deixar uma fuga triunfar, é demasiado especial.”

Os primórdios e o futuro

O americano começou a competir ao lado do irmão, numa equipa que lhe permitiu estar nas Red Hook Series com uma “fixie”, ou seja, uma bicicleta de uma mudança apenas.

“É tão divertido! Quando o David Trimble tinha a Red Hook Series, corri com o meu irmão numa equipa e foi a primeira vez que estive na Europa. Bom ambiente, festas divertidas, corridas malucas… Foi assim que comecei. Sinto saudades. Já não ando numa bicicleta assim. Vivo no meio do nada com estradas de terra batida”, contou.

Ganhar os Campeonatos Nacionais é algo tão bom! É um desporto tão difícil. Todos os dias há 150 pessoas a querer cortar a meta em primeiro.

Considera que, quando se é novo, uma bicicleta deste género é uma boa forma de se começar, até porque são mais baratas do que uma de estrada. Murphy confessou que não se importaria nada de pedalar de novo numa “fixie”. “Se as corridas voltassem seria difícil não regressar. É tão divertido”, reitera.

Quanto ao futuro, aos 30 anos mostra-se feliz pelo que já alcançou, querendo mais vitórias, mas sem sequer falar em World Tour, ou objetivos de grandes corridas. É perentório em dizer que está feliz assim.

“Gosto de estar aqui. Ganhar os Campeonatos Nacionais é algo tão bom! E há tantos ciclistas que nunca ganharam uma corrida. É um desporto tão difícil. Todos os dias há 150 pessoas a querer cortar a meta em primeiro, há tantos bons ciclistas agora… Principalmente com a batalha pelos pontos para fugir à despromoção é tão difícil para as equipas mais pequenas, portanto, ter uma vitória é algo já impressionante. Eu estou super feliz!”.

Não esquece que um triunfo como o que alcançou, sem esquecer as etapas na Volta em 2021, são também formas de retribuir ao staff da equipa americana, que Murphy destacou trabalhar tão arduamente para dar todas as condições aos ciclistas.

O ciclismo americano

Têm surgido ciclistas de talento, mas falta aquele corredor de grandes vitórias. Porém, uma nova geração tem estado a chamar a atenção para o ciclismo dos Estados Unidos, num país onde os fãs estão a recuperar a confiança e o gosto pela modalidade.

“Temos o Sepp Kuss [da Jumbo-Visma], Brandon McNulty [UAE Team Emirates], Matteo Jorgenson [Movistar], Neilson Powless [EF Education-EasyPost] e eles estão a ganhar corridas importantes. Magnus Sheffield [Ineos Grenadiers], Sean Quinn [EF Education-Easy Post]… há tanto talento”, frisou.

“Acho que os fãs estão a voltar. disseram que este ano houve um recorde de pessoas a ver os Nacionais ao vivo. Acho que já não é preciso muito para aproveitar este momento. Há mais gente a andar de bicicleta agora, depois da pandemia e com os preços dos combustíveis. É um desporto tão bom e acho que nos próximos anos vão acontecer coisas muito boas para o ciclismo americano”, afirmou.


Foto principal: O triunfo na Serra do Larouco (Agnelo Quelhas/Podium).

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Elisabete Silva
Quando uma vasta experiência em jornalismo se junta a uma paixão imensa por bicicletas, o resultado é como música para os ouvidos do mais curioso ciclista. E é isso que esta mestre da modalidade acrescenta ao projeto GoRide.

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