Joaquim Silva é um dos ciclistas portugueses em destaque neste início de temporada. O nono lugar no Gran Camiño foi o resultado de maior nota, mas já na Figueira Champions Classic e, principalmente, na Volta ao Algarve – foi o melhor entre as equipas Continentais portuguesas -, o corredor da Efapel Cycling havia demonstrado que está muito forte nestas primeiras semanas de competição.

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Ao GoRide contou como teve uma das pré-épocas mais difíceis da carreira, mas que sempre aponta a começar bem o ano. Poder competir com equipas do World Tour agrada-lhe, motiva-o e ao ver que consegue estar ao lado de alguns grandes nomes da modalidade faz-lhe pensar que… tem de melhorar o posicionamento!

Aos 30 anos é um dos pontos que diz ter de corrigir, além de continuar a não saber lidar muito bem com a questão de ser líder… Mas já lá vamos, porque Joaquim Silva explicou afinal qual é o “problema” com este papel.

Contavas com tanto destaque neste início de temporada?

Sim, normalmente preparo o início de época com muito afinco e muita dedicação. Esta pré-temporada foi, provavelmente, das mais difíceis, devido à chuva e ao frio. Acho que desde novembro dificilmente apanhámos uma semana que não chovesse. Foi das mais difíceis, mas estou habituado a treinar bem na pré-temporada, porque gosto mesmo de entrar bem na época.

Normalmente não começas mal as épocas, mas o nono lugar no Gran Camiño ajuda a este destaque…

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Sim, ajuda! É motivador chegar a provas internacionais e conseguir andar com os melhores. É assim que temos de pensar! Temos um calendário competitivo durante o ano, mas quando se corre com estas estrelas, isso ainda dá mais ânimo.

Mesmo que perca – que é o que acontece a maior parte das vezes com estas estrelas -, dá sempre para evoluir. Só competindo com os melhores é que conseguimos elevar o nosso nível. Isso faz parte de mim! Sempre fez desde que sou ciclista. Entrar bem motiva-me para o resto da época.

O que significa para ti esta classificação numa prova que foi ganha pelo último vencedor da Volta a França, Jonas Vingegaard?

Significa muito! É o trabalho de toda a equipa, tenho de agradecer porque sem eles [companheiros], esse lugar não seria possível. Foram meses duros de preparação. Quando começámos a época, na Figueira Champions Classic, notámos que tínhamos um bocadinho falta de ritmo.

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Esse nono lugar é muito gratificante, ainda mais sabendo que em algumas entradas nas subidas, por exemplo no Monte de Santa Tecla, entrei muito atrás. Fiz uma recuperação muito grande. A colocação é sempre o meu ponto fraco. Sei que se tivesse entrado 20 lugares à frente nessas subidas, tanto na Santa Tecla, tanto no dia seguinte, teria, se calhar, conseguido um lugar ainda melhor.

É com estes erros que se aprende e que se ganha confiança. Estamos a lutar contra grandes ciclistas e às vezes temos a tendência para nos inferiorizar um bocadinho. Depois, no final da etapa, vemos os números que fizemos e os que eles fazem e são similares, ou até melhores. Temos de nos convencer que temos o mesmo valor que eles, só falta mesmo a oportunidade.

A Efapel Cycling tem tudo para crescer. Já estive numa Caja Rural [escalão ProTeam], e esta equipa tem a mesma organização, o mesmo staff… É fora do normal

Falaste em falta de ritmo…

Nós acabamos a época em setembro e eles [ciclistas do World Tour] terminam em outubro. Param uma semana ou duas e começam logo a treinar. Nós estamos praticamente um mês parados antes de começar a treinar.

Acho que a nossa principal dificuldade, principalmente na Figueira e na Volta ao Algarve foi essa falta de ritmo. Estamos com bons treinos, mas há falta de ritmo de competição. Após essas duas corridas senti um pico de forma na Galiza. Tinha esse ritmo. Já sentia muito mais facilidade a passar as subidas e já perto dos meus números máximos.

O top 10 era o objetivo na corrida em Espanha?

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O objetivo era estar na frente, pelo menos no top 15. Sabemos que o nível é alto e então partimos com esse objetivo. Conseguimos o top 10 e temos de estar felizes!

Perante os planos da equipa, até numa perspetiva de crescimento e na aposta em provas no estrangeiro, este foi um resultado importante?

Muito. O objetivo da equipa é ser competitiva de fevereiro a setembro e é muito importante ser competitiva nessas corridas, onde estão grandes formações mundiais.

A Efapel Cycling tem tudo para crescer. Já estive numa Caja Rural [escalão ProTeam] e esta equipa tem a mesma organização, o mesmo staff… É fora do normal.

Foi um ano difícil na Caja Rural, em 2018. Eu estava doente e não sabia

Este é o segundo ano do projeto de José Azevedo e tu estás desde o início. Há diferenças entre 2022 e 2023?

Não mudou muito. No ano passado quando entrámos já tínhamos o material todo. Nunca nos faltou nada. Tem uma organização muito boa. Por exemplo, vimos para esta competição em Santo Tirso [Clássica de Santo Thyrso] e vamos para o hotel no dia antes, com a preocupação de receber a massagem, de estar no ambiente de corrida, na concentração da corrida. Isso é algo impensável para a maioria das equipas em Portugal.

É essa organização e esse profissionalismo que nos diferencia em Portugal neste momento, entre as equipas Continentais. Esta equipa se tivesse mais orçamento, já merecia estar no patamar Pro Continental, sem dúvida nenhuma.

Como disseste, passaste pela Caja Rural, equipa do segundo escalão. Sentes que podes novamente ir mais além perante estas exibições? Tens mais para dar?

Sinto isso… Foi um ano difícil na Caja Rural, em 2018. Eu estava doente e não sabia. Para mim era normal ter de vez enquanto gastroenterites. Eu não sabia… Acontecia duas ou três por ano. Naquele ano começou a ser mais constante, mas só em 2020 é que procurei saber o que se passava.

Com tão pouca competição por causa da pandemia em 2020, eu cada vez que fazia uma corrida, tinha uma gastroenterite. Pensa-se que é da ansiedade, dos nervos, pela situação da pandemia… Mas, no final de 2020, tive a garantia que era um problema de saúde. Só então resolvi o problema.

Nestas últimas épocas foi muito bom voltar a ser competitivo e a estar na frente. Estar com estas estrelas do World Tour e estar à beira delas… Claro que uma pessoa fica muito contente. Eu já não penso em voos internacionais, mas sei que esta equipa tem capacidade para isso e se conseguir estar na frente para ajudar a Efapel Cycling e alcançar bons resultados, é juntar o útil ao agradável.

Depois começaste a regressar ao teu nível…

A partir de 2021 e esse foi um ano ótimo, na Tavfer [Measindot-Mortágua]. Depois apareceu o projeto do José Azevedo e vi que era um com futuro. Trabalhar com o ele e com o Hélder [Miranda] – com quem já trabalhava e que também transitou para a equipa – é espetacular.

São ideias completamente diferentes. O José Azevedo é uma pessoa que esteve ligada muitos anos ao World Tour, tem ideias novas, para inovar o ciclismo e isso foi o que me aliciou ainda mais.

Nestas corridas internacionais […] tento estar com os melhores e é muito bom conseguir. Percebe-se que se pode evoluir ainda mais, apesar de já se ter 30 anos!

E continuaste com as boas prestações de 2021, quando venceste o Grande Prémio JN e no ano passado conquistaste a Clássica de Viana do Castelo…

Um dos principais pontos na minha carreira foi fazer esse ano excelente em 2021 e depois transitar para uma equipa que me trouxe mais motivação e ambição.

Eu com 30 anos, tenho mentalidade de um jovem. Procuro estar sempre bem nas corridas, ser útil à equipa. Nestas corridas internacionais em que, praticamente temos que tentar ir na roda e fazer o melhor possível, tento estar com os melhores e é muito bom conseguir. Percebe-se que se pode evoluir ainda mais, apesar de já se ter 30 anos!

A Volta a Portugal é sempre um objetivo. Que outros tens em 2023?

Aqui fazemos as corridas todas para as tentar ganhar. Preparámos o início de época para entrar bem e agora é aguentar esta forma o máximo possível.

Gostava de estar bem até à altura do Grande Prémio O Jogo [21 a 25 de abril], a Volta às Astúrias [28 a 30 de abril] e depois o Douro Internacional [14 a 18 de junho]. Essas corridas são os principais objetivos pessoais. Estar bem até essa fase. Espero conseguir, mas ainda falta um mês e meio. Depois é descansar e pensar no resto da temporada.

Vamos à questão da liderança. És um dos líderes da Efapel Cycling, mas parece que não gostas muitos que digam isso, ainda que depois alcances resultados e faças exibições de… líder… Afinal gostas ou não de ter esse papel?

Desde as camadas jovens fui habituado a trabalhar para toda a gente. Olhava sempre em prol da equipa, dos meus companheiros, antes de olhar para mim. O que acontecia muitas vezes é que era realmente o mais forte, mas tinha de trabalhar para outros. Trabalhava e quando abria… abria e já não pensava num bom resultado. Era o resultado da equipa o mais importante.

Depois estive muitos anos noutras formações em que o objetivo era trabalhar… Quando voltei para o Mortágua é que tive mesmo esse papel de líder, a partir de 2020.

Não sei… Não sei lidar muito bem com essa responsabilidade… Depois também houve a doença, eu não sabia se era a ansiedade que me fazia ter gastroenterites ou se era falta de capacidade… Pensa-se em tudo!

Em 2021, quando consegui estar mais na frente, só aí é que comecei a ser mesmo líder. Mas acho que ainda não sei lidar com essa responsabilidade. É muito recente.

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Fotografias: João Fonseca Photographer/Efapel Cycling

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