Depois de uma primeira edição carregada de simbolismo, com direito a atravessar o Tejo de barco, tal como em 1927 quando a Volta a Portugal masculina se estreou, a versão feminina entra agora numa importante fase de consolidação. O objetivo não é apenas fazer crescer a competição, mas que esta sirva de âncora para a evolução do ciclismo entre as mulheres no nosso país. É a Volta a Portugal Feminina.

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Sérgio Sousa veste a camisola, como o próprio o diz, com muito orgulho. É o diretor da organização de uma prova que desta quinta-feira a domingo terá a sua segunda edição, novamente com quatro dias, mas com mais equipas e com uma “saída da zona de conforto”.

Sérgio Sousa diz ser “uma honra, um orgulho poder vestir esta camisola em prol do ciclismo”.

Sendo um rosto bem conhecido da modalidade, Sérgio Sousa terminou a carreira em 2016 e desde então tem estado do outro lado das corridas, na organização, através da federação. Contudo, estar agora envolvido num projeto tão importante para o ciclismo feminino foi algo inesperado.

“Nunca me passou pela cabeça! No meu tempo de ciclista, tão pouco o ciclismo feminino tinha esta importância, não só na federação, como em toda a comunidade. Nunca me tinha imaginado a fazer tal coisa. Mas o que é certo é que me apaixona desenvolver projetos que possam ficar para a história, que ajudam a desenvolver toda uma comunidade. Isto é válido para o ciclismo feminino, como é válido para o ciclismo júnior masculino, cadetes e tudo isso. É uma honra, um orgulho poder vestir esta camisola em prol do ciclismo”, confessou ao GoRide.pt.

As equipas femininas para 2022 já foram registando as suas atletas, já se foram constituindo em grupos a pensar na Volta a Portugal.

Se criar uma Volta a Portugal feminina não foi fácil, consolidá-la é uma missão de contornos bem difíceis, mas com um plano bem delineado para tentar que esta seja uma competição que vá escrevendo a sua história.

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“Pode-se considerar que a edição de 2021 foi o evento-piloto, o evento-teste, para perceber como é que as equipas e as atletas reagiam a este tipo de competições, prova por etapas, porque era algo que não tinha sido explorado desta forma até esta data”, explicou Sérgio Sousa.

“Deu para perceber o comportamento das equipas, as suas dificuldades, o ponto de evolução, o que, de certa forma, para 2022, ajudou-nos muito na definição e tipologia dos percursos, precisamente por já se conhecer com mais clareza a nossa comunidade e forma organizativa das nossas equipas”, acrescentou.

O responsável salientou como num ano se verificou algo de muito positivo, após a primeira Volta: “As equipas femininas para 2022 já foram registando as suas atletas, já se foram constituindo em grupos a pensar na Volta a Portugal. O resultado disso é que temos mais quatro equipas portuguesas do que tínhamos no ano passado”.

Corrida essencial para a evolução do ciclismo feminino

Num calendário parco em provas para as raparigas, o aparecimento da Volta a Portugal foi uma notícia muito bem recebida, numa altura em que tanto se fala em equidade no desporto e se aposta no desenvolvimento desta modalidade, como se tem visto internacionalmente, ao nível do World Tour.

É esta Volta a Portugal feminina essencial por cá? “Claro. A Volta a Portugal do escalão elite masculino é fundamental para a definição do ciclismo nacional. O exercício é exatamente o mesmo. Nós precisamos de eventos âncora para que a nossa comunidade ambicione atingir determinadas metas. E é esse o propósito da existência da Volta a Portugal feminina e é sempre com base nisto que tentamos melhorar a competição. É um projeto que serve para desenvolver o ciclismo feminino”, respondeu.

Colocar o projeto na estrada não foi fácil, contudo, consolidá-lo não se apresenta menos complicado: “Em termos organizativos, em termos de ignição do projeto, diria que foi mais difícil, como é óbvio, arrancar, pôr em cima da mesa, finalizar o projeto para pôr a Volta a Portugal feminina em marcha. Depois de ela começar, eu diria que é mais difícil manter a evolução ou lutar para que haja uma evolução, lutar para que tenhamos um evento que corresponda às exigências da nossa comunidade, não só das equipas, mas também dos amantes de ciclismo. É sempre mais difícil consolidar um evento, para que passe a ser uma corrida histórica”.

Os necessários apoios

Sérgio Sousa salientou que é preciso lutar para que a Volta a Portugal feminina “ganhe essa estabilidade institucional e a nível comercial”, mas tem o apoio de importantes empresas e municípios, como Torres Vedras, terra de Joaquim Agostinho, e Anadia, local do velódromo nacional, que vão receber chegadas da corrida.

Nós sentimos que na verdade as grandes marcas, os municípios âncora, estão bastante sensibilizados para esta questão da equidade no desporto. Já estamos numa outra fase da nossa comunidade, da nossa sociedade de olhar para o desporto.

“Não é fácil [convencer municípios] porque é ainda um mundo desconhecido das nossas autarquias. O desporto feminino é ainda um mundo novo que está a crescer, ainda não temos história suficiente para ter dados, para ter números firmes para apresentar. Mas isso faz parte das regras do jogo”, disse.

Porém, mostrou-se satisfeito por ver abertura para que esta prova possa crescer: “Nós sentimos que na verdade as grandes marcas, os municípios âncora, estão bastante sensibilizados para esta questão da equidade no desporto. Já estamos numa outra fase da nossa comunidade, da nossa sociedade de olhar para o desporto. Isso facilita-nos muito, estas empresas com grande potencial, internacionais, têm uma forma de estar, de ver a sociedade muito mais abrangente, isso ajuda-nos. Difícil, por vezes, é traduzir isso em financiamento para colocar a prova na estrada”.

A Cofidis dá naming à corrida e patrocina a camisola vermelha dos pontos, enquanto os Jogos Santa Casa patrocinam a amarela (geral), a Médis a branca (juventude) e o Instituto Português do Desporto e Juventude a azul (montanha).

Sair da zona de conforto

Uma das principais mudanças da primeira para segunda edição está no percurso escolhido. O mesmo número de etapas, quilómetros idênticos (este ano serão 273,4), mas atravessando diferentes regiões.

Em 2021 começou em Lisboa (partida e final da prova), passou-se depois por Cacilhas (Almada), Setúbal, Mafra, Loures, Vila Franca de Xira (onde foi o contrarrelógio individual) e Caldas da Rainha. Ou seja, locais próximos, sem necessidade de deslocações entre etapas. Cenário diferente em 2021. Arranca-se de Loures e irá acabar-se em Anadia. A distância não é enorme, mas já implica outra logística.

“No ano passado fizemos a corrida toda numa zona só. Razão muito simples: sabíamos da organização interna das equipas, tínhamos alguns receios da capacidade delas de se movimentar de hotel em hotel e de ter outra equipa na retaguarda, para preparar as atletas, para fazer esta logística de hotel em hotel. Tínhamos essa noção e acabámos por centralizar a corrida numa única região. Sabíamos que estando numa única zona, conseguiam fazer a Volta toda”, frisou.

“Este ano já começámos a colocar a Volta mais extensa, já as obriga a planear, a ter uma logística diferente em termos de staff e viaturas. São essas pequenas alterações que temos de ir fazendo para consolidar e não matar as equipas”, acrescentou.

As equipas

De 14 equipas em 2021 para 17 em 2022, com sete a serem estrangeiras. Entre as portuguesas, apenas duas advêm das formações Continentais masculinas, ainda que a Efapel Cycling não vá competir por si só. A outra é a Sicasal/Glassdrive, estrutura da Glassdrive/Q8/Anicolor.

Para Sérgio Sousa, existe vontade de se criarem mais equipas femininas, como comprovam as quatro que entretanto vão reforçar o pelotão da Volta. No entanto, “a questão é que ainda não temos atletas em número suficiente com esta visão competitiva que o ciclismo quase que as obriga a ter”.

“A dificuldade prende-se mesmo aqui: termos atletas a este nível, no escalão elite. É certo que em termos de escolinhas o número de atletas femininas é bastante confortável, nos cadetes, nos juniores tem havido pequenos aumentos anuais. Mas o que é certo é que chegamos ao escalão de sub-23, ao escalão elite e perdem-se muitas miúdas. A dificuldade das equipas é esta”.

As equipas nacionais presentes serão as 5Quinas/Município de Albufeira/CDASJ, Cantanhede Cycling/VESAM, Discover Melgaço/União Ciclista de Melgaço, Korpo Activo/Penacova, Maiatos e Sicasal/Glassdrive. A estas seis equipas somam-se ainda quatro equipas mistas, formadas por atletas de diferentes formações que não participam na prova: Paredes/Alenquer/Mato-Cheirinhos/D’Helvetia, a Proteu/Retorta/Efapel, a Velo Performance/Extremosul e ainda a Seleção Nacional de Juniores e Sub-23.

As estrangeiras serão: as espanholas Kiwi Atlántico Louriña, Massi Tactic Women’s Team, Zaaf Cycling Team e Seleccion Catalana, as britânicas RFDA e Team LDN/Brother UK, e a francesa Team Groupe Abadie Le Boulou.

O pelotão contará com cerca de 100 ciclistas, recordando-se que o nome que fica para a história da corrida é o de Raquel Queirós (Clube BTT Matosinhos/Velo Performance), vencedora da primeira edição.

Raquel Queirós, vencedora da 1ª edição da Volta a Portugal Feminina, em 2021.

As etapas

Sérgio Sousa falou-nos sobre o que esperar de cada dia da Volta a Portugal.

Prólogo, quinta-feira: Loures (2,9 quilómetros). Início 16 horas:

“Apesar de se achar que é demasiado curto, não deixa de ser um exercício interessante para as nossas atletas, principalmente para as que vêm do BTT, que são mais explosivas, ou também as que estão mais familiarizadas com a pista e que podem ganhar logo aqui alguma margem de segundos. Os segundos aqui podem ser fundamentais na disputa da geral. É uma Volta pequena, pelo que os segundos são cruciais”.

Primeira etapa, sexta-feira: Vila Franca de Xira-Torres Vedras, junto à estátua de Joaquim Agostinho (87,6 quilómetros). Partida às 12h45, chegada prevista para as 15 horas.

“Aparenta ser plana, mas não é. Toda a gente que a zona do Oeste é sempre ondulante e ventosa. Apesar de eu acreditar que possa chegar um grupo de 20/30 atletas, é aquela etapa, como se diz na gíria do ciclismo, não se ganha a Volta, mas pode-se perder. Aqui vai ser interessante perceber quais as atletas com capacidade de estudar a etapa, de perceber as movimentações para estarem nas viragens no sítio certo para não perderem o contacto. Não é pela dureza, mas sim pelas armadilhas que o Oeste nos traz”.

Segunda etapa, sábado: Monte Redondo (Leiria)-Ourém (78,1 quilómetros). Partida às 12h45, chegada prevista para as 15 horas.

“É uma etapa sem grande dificuldade, exceto o Alto do Reguengo. É uma subida não muito longa, mas com uma dureza que no patamar do ciclismo feminino já é uma dureza considerável, vai haver ali certamente grandes diferenças”.

A subida fica a 22,5 quilómetros da meta. Será que tal terá influência na forma como se atacará a dificuldade?

“É uma boa questão. Se houver uma equipa organizada em que a líder não perca assim tanto tempo quanto isso, se houver uma equipa que a saiba defender, dá a ilusão que se possa recuperar, que se pode fazer uma gestão.

Será interessante perceber como é que as equipas conseguem jogar em equipa e ter a frieza de perceber se vão conseguir ter tempo para recuperar ou não. Do Alto de Reguengo até Ourém a corrida não é tão dura quanto isso.

O expectável é que a líder seja uma rapariga rápida, que acabou bem posicionada no prólogo e/ou uma boa classificação na etapa anterior. Poderá ser que a líder não seja uma trepadora por excelência”.

Terceira etapa, domingo: Aveiro-Anadia (104,7 quilómetros). Partida às 12h15, chegada prevista para as 15h15.

“Terá duas voltas ao circuito do Campeonato da Europa de Estrada [de juniores e sub-23 a realizar em julho, de cerca de 20 quilómetros]. É um circuito bastante exigente, mas a etapa até ao circuito é bastante acessível. Não vamos descurar as bonificações nas metas volantes, será interessante ver como as equipas vão lutar por estas bonificações.

No circuito temos duas subidas, a de Algeriz e do Monte Crasto, são exigentes, com duas passagens. A última etapa vai ser a doer. Provavelmente será para a atleta que maior resistência tem, que melhor consegue recuperar, que menos se desgastou”.

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Todas as imagens: Federação Portuguesa de Ciclismo

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Elisabete Silva
Quando uma vasta experiência em jornalismo se junta a uma paixão imensa por bicicletas, o resultado é como música para os ouvidos do mais curioso ciclista. E é isso que esta mestre da modalidade acrescenta ao projeto GoRide.

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