No momento emocional da despedida de uma longa carreira, Tiago Machado deixou um lamento que diz muito de como é quando compete:  “Não contribuir com mais espetáculo” na Volta a Portugal.

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É um ciclista conhecido não apenas por tentar fugas, mas por não ter receio de percorrer longas distâncias, até em solitário. A sorte que tantas vezes diz o ter acompanhado não esteve do seu lado na Volta.

Quatro quedas deixaram-no “amassado”, como disse ao GoRide.pt. Mas despediu-se feliz por todo o carinho que recebeu de um público (e não só) que o reconhece como um dos ciclistas que marcaram uma geração na modalidade em Portugal.

“Tenho de agradecer imenso aos portugueses o carinho e foi pena não ter conseguido mais aqui, na nossa prova mais importante, não contribuir com mais espetáculo”, afirmou o corredor da Rádio Popular-Paredes-Boavista.

“É a nossa Volta, um público fantástico. Senti-me um privilegiado [no contrarrelógio final] porque foram 18,6 quilómetros em que, do início ao fim, tive o carinho do público. Só tenho de lhes agradecer o apoio que me deram ao longo de 18 anos como profissional”, acrescentou.

Grande parte da minha carreira posso dizer que fui abençoado com a sorte, mas também muitas vezes foi madrasta comigo.

Naturalmente que gostaria de ter saído com uma vitória de etapa, mas desta feita, a sorte não esteve do seu lado.

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“Eu tentava entrar nos cortes, mas nunca consegui apanhar os cortes certos. Grande parte da minha carreira posso dizer que fui abençoado com a sorte, mas também, muitas vezes, foi madrasta comigo”, referiu. E quatro quedas em onze dias…

Porém, não perdeu mais tempo a pensar no que não correu bem: “Sinto-me orgulhoso da carreira que fiz. As pessoas que me rodeiam sentem-se orgulhosas”.

A equipa da Rádio Popular-Boavista-Paredes na 83ª Volta a Portugal.

E lembrou: “O recorde da Volta a Portugal na juventude é meu, três vezes. Perdi uma vez no último contrarrelógio”.

O agradecimento a Sérgio Paulinho

Então, foi o início de uma carreira que o levou além fronteiras. Recordou como não foi fácil a adaptação e quem foi importante para que não regressasse rapidamente a Portugal.

Ao fim de um mês já queria voltar para Portugal, ele [Sérgio Paulinho] é que me ajudou a aguentar.

“Sinto-me orgulhoso por ter feito parte dessa equipa que conquistou o campeonato do mundo através do nosso Rui. Já para não falar da medalha que nos abriu a porta além fronteiras do nosso Sérgio Paulinho, o comendador”, começou por realçar.

“Sinto-me um privilegiado por ter tido essas pessoas na minha carreira porque foram fundamentais. Em especial o Sérgio. Foi, se calhar, o meu melhor companheiro além fronteiras e mesmo dentro de fronteiras porque ajudou-me bastante quando fui para o estrangeiro”.

Ao fim de um mês já queria voltar para Portugal, ele é que me ajudou a aguentar e eu fui fazendo a carreira que consegui”, frisou.

Machado esteve no World Tour na RadioSchack e na Katusha, com uma passagem pelo segundo escalão na NetApp-Endura, que viria a crescer até à atual Bora-Hansgrohe.

Falta de apoios

Se na estrada é conhecido por considerar que nada é impossível, por ser um ciclista atacante, sempre pronto a dar espetáculo, fora das corridas é igualmente conhecido por não ter problemas em dizer o que pensa.

Se se sente orgulhoso da carreira que teve e de como viu a sua geração destacar-se a nível mundial, sente-se também desiludido como a modalidade é tratada.

Nós merecíamos mais apoios. É triste ver os fundos que vão para outros desportos e nós que já conseguimos tanto para o nosso país.

“Fico triste de nos meus melhores anos ter de ter sido emigrante para poder fazer um bom pé de meia. O ciclismo em Portugal é muito mal remunerado”, disse.

“Nós merecíamos mais apoios. É triste ver os fundos que vão para outros desportos e nós que já conseguimos tanto para o nosso país… Campeonatos europeus de pista, campeonatos mundiais de pista, de ciclismo de estrada… Foi o que a minha geração conseguiu ganhar”, salientou.

Últimas pedaladas

Finda a temporada, Tiago Machado vai juntar-se ao projeto liderado por José Azevedo. Na Efapel será responsável pela academia da estrutura, ou seja, pela formação de jovens ciclistas. Mas ainda faltam mais uns dias na bicicleta.

“Vamos ter as tradicionais festas de ciclismo, os circuitos. Embora eu esteja um pouco amassado, das quedas que sofri estes dias, o Grande Prémio JN também é uma corrida que merece todo o meu respeito”.

“Quando comecei a correr era uma prova bastante importante para as camadas jovens. Como tal, acho que devo marcar presença, a não ser que seja escolha da equipa deixar-me de fora”, referiu.

Acompanhado pela mulher, que o seguiu no carro de apoio no contrarrelógio Porto-Gaia, Tiago Machado saiu de cena na Volta a Portugal como uma das figuras, mesmo sem dar espetáculo.

Na hora da despedida, o público português fez questão de acarinhar um ciclista que, aos 36 anos, é dos mais populares do pelotão.

A caravana da Volta também o homenageou, juntamente com Alejandro Marque (Atum General-Tavira-AP Maria Nova Hotel) e Micael Isidoro (ABTF Betão-Feirense), mais dois veteranos que estão na reta final da carreira.

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Fotografia no contrarrelógio: João Fonseca Photographer/Federação Portuguesa de Ciclismo

Restantes fotografias: Agnelo Quelhas e Fernando Correia/Podium Events

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Elisabete Silva
Quando uma vasta experiência em jornalismo se junta a uma paixão imensa por bicicletas, o resultado é como música para os ouvidos do mais curioso ciclista. E é isso que esta mestre da modalidade acrescenta ao projeto GoRide.

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