De Salto até Gaia para vencer a Volta a Portugal. O uruguaio que cresceu no mundo do ciclismo confirmou o favoritismo e subiu ao pódio como campeão. Mauricio Moreira tanto deu demonstrações de força como sofreu bastante nesta Volta. No contrarrelógio final não falhou e está definitivamente ultrapassada a frustração de 2021. O mais complicado foi mesmo conter as lágrimas de emoção.

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Há um ano, uma queda  e dez segundos deixaram-no num amargo segundo lugar. Em 2022, a corrida dificilmente poderia ter corrido melhor. Para Moreira e para a equipa. A Glassdrive-Q8-Anicolor não fez o pleno de classificações, mas o pódio final foi bem amarelo.

Fez a tripla na geral, com Frederico Figueiredo em segundo (a 1:09) e António Carvalho em terceiro (2:35). Venceu coletivamente. Figueiredo foi o rei da montanha. Cinco etapas ganhas, as três de montanha e os dois contrarrelógios.

Já era expectável um certo domínio da formação que mais ganha em 2022 nesta Volta a Portugal. Mas foi por de mais avassalador. Principalmente por colocar três homens nos três primeiros lugares, algo que não acontecia desde 1974, mas também porque não houve nenhum quilómetro, nenhum metro em que perdesse o controlo da corrida.

Em 1974 foi o Benfica a equipa que reinou, com Fernando Mendes, Dinis Silva e António Martins. As outras triplas aconteceram em 1947, também com o Benfica, em 1949 com o FC Porto e em 1951 com o Sangalhos.

Contrarrelógio perfeito

Há um ano, Mauricio Moreira caiu e perdeu a Volta por dez segundos. Agora “tirou” no último dia a camisola amarela que era envergada pelo companheiro Frederico Figueiredo.

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Sete segundos eram escassos, sabendo-se que o português e o contrarrelógio não combinam. No final, as contas ditaram Figueiredo a 1:09 de Moreira e António Carvalho a 2:35, ele que foi segundo na etapa, a apenas 21 segundos do uruguaio.

Luís Fernandes (Rádio Popular-Paredes-Boavista) não conseguiu segurar o lugar no pódio, fechando na quarta posição, a 3:44. Mas boa Volta do ciclista, um eterno gregário que assumiu o papel de líder e foi o único que ainda seguiu na roda dos homens da Glassdrive-Q8-Anicolor, até à Senhora da Graça.

Alejandro Marque fechou o top cinco, mas dele já falaremos.

Mauricio Moreira encarou os 18,6 quilómetros entre Porto e Gaia com determinação, mas com redobrada atenção. Percurso técnico, com muitas viragens, rotundas e um empedrado que ainda criou dificuldades a alguns ciclistas. Mas não ao campeão da Volta.

Natural de Salto, no Uruguai, é o segundo sul-americano a vencer a Volta. O brasileiro Cássio Freitas ganhou em 1992, com as cores da Recer-Boavista. Aliás, são os dois únicos não europeus a conquistar a Volta a Portugal.

Muitas lágrimas

Moreira chorou. Não foi fácil responder a tantas perguntas no pós-vitória sem se emocionar.

“Não tenho palavras para descrever o que estou a sentir neste momento. Ainda não caí na realidade. Quando acordar deste sonho é que vou perceber. Acho que vou chorar de novo”, mas lá se aguentou.

“Sem dúvida que é o momento mais feliz. Faz-me lembrar muitas coisas: o ano difícil que tive, o que sofri nesta volta – que não foi pouco – e ter a minha família aqui é ainda melhor”, afirmou um muito emocionado Mauricio Moreira.

“Era um sonho ganhar a Volta. Dentro desse sonho não a estava a disputar com um colega de equipa. O Fred é um senhor. Ontem poderia ter ganho a Volta, mas não fez isso, respeitou-me”, acrescentou.

E ficou ainda a promessa: para o ano não se importará de retribuir o que Frederico Figueiredo fez por ele e ajudá-lo a ganhar a Volta a Portugal. Moreira não esqueceu como o companheiro não atacou na Senhora da Graça, apesar do uruguaio estar claramente em dificuldades.

Emoção na despedida

E Gaia foi mesmo palco de muita emoção, além daquela proporcionada por um final de Volta a Portugal.

Alejandro Marque (Atum General-Tavira-AP Maria Nova Hotel), Tiago Machado (Rádio Popular-Paredes-Boavista) e Micael Isidoro (ABTF Betão-Feirense) estão na reta final de carreira.

Ainda participarão em mais corridas até ao final da temporada, mas todos sentem que o adeus foi feito na Volta.

Entre a emoção dos três e de todos aqueles que os abraçaram, ficou bem claro o respeito e admiração que o pelotão e não só têm por eles. E o público também os aplaudiu.

No final ficou um obrigado. Marque até teve um capacete personalizado e quis sair em grande. Foi terceiro no contrarrelógio, a 1:05 de Moreira e fechou o top cinco, a 5:17.

O espanhol que fez carreira por cá queria sair em grande, deixar uma última marca e foi um dos mais combativos da prova, mesmo que dois problemas mecânicos o tenham prejudicado, primeiro na Torre e depois na Senhora da Graça.

Até ao último metro quis ser competitivo e sai pela pronta grande, ele que venceu uma Volta a Portugal em 2013 e no ano passado terminou no pódio e venceu na Torre.

Cai o pano

Assim terminou uma Volta a Portugal com uma luta pela geral de sensação diferente quando é feita entre companheiros de equipa.

Uma das grandes lutas foi pela camisola verde, dos pontos. Scott McGill, sempre discreto, mas sorridente, ganhou-a. Mas tanto o americano como toda a sua equipa, a Wildlife Generation, mostraram admiração e respeito pelo adversário de luxo que foi João Matias (Tavfer-Mortágua-Ovos Matinados).

Ambos saem com duas vitórias de etapa, que Mauricio Moreira igualou neste último dia.

Também discreto e a tentar assimilar a sua conquista estava Jokin Murguialday. Vencedor da juventude e nono na geral, o espanhol da Caja Rural-Seguros RGA não esconde um gosto especial por Portugal.

É que no ano passado ganhou a mesma classificação no Troféu Joaquim Agostinho. Espera que seja o impulsionar de uma carreira ao mais alto nível.

Para o ano já foi anunciado: a Volta a Portugal arranca de Viseu.

Classificações completas:


Fotografias: Agnelo Quelhas e Fernando Correia/Podium Events

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Elisabete Silva
Quando uma vasta experiência em jornalismo se junta a uma paixão imensa por bicicletas, o resultado é como música para os ouvidos do mais curioso ciclista. E é isso que esta mestre da modalidade acrescenta ao projeto GoRide.

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