De São Miguel para o pelotão da Volta a Portugal. João Medeiros soma a sua segunda presença na corrida com apenas 22 anos. Admitiu que evoluiu de uma edição para a outra. Faz da ilha açoriana o seu local de treino e deixa recomendações de boas subidas para pedalar.

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Em 2021, o ciclista da LA Alumínios-Credibom-Marcos Car experimentou viver mais no continente. Contudo, sendo alguém que valoriza muito o equilíbrio emocional e mental, este ano optou por estar mais em casa quando não está a competir.

João Medeiros (ao centro) está a realizar a sua segunda Volta a Portugal.

“O ano passado tentei uma estratégia de ficar mais tempo cá porque também havia mais corridas menos espaçadas. Ficava em casa de colegas, mas também acaba por ser mais difícil psicologicamente. Sente-se a falta dos amigos, família, as nossas rotinas… Por isso, viajo mais, mas tem corrido super bem”, referiu ao GoRide.pt.

Então, em que subidas se treina bem em São Miguel?

“É o que não falta! Temos a Lagoa do Fogo, a Lagoa do Canário, temos a nordeste duas ou três subidas que também são super duras. Na própria [Lagoa das] Sete Cidades temos várias variantes que podemos ir de uma subida de 30 minutos a 10% a uma de 15 a 20%. Temos bastante variedade”, respondeu.

Uma das subidas que eu faço mais é mesmo à porta da minha casa [Capelas]: a Criação. […] Faço muito essa subida porque cria trepadores.

Uma das suas preferidas recebeu um nome sugestivo.

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“Uma das subidas que eu faço mais é mesmo à porta da minha casa [Capelas]: a Criação. Damos esse nome porque, quando o meu pai fazia ciclismo, tinha um primo que fazia muito essa subida e ele acabou por se tornar um bom trepador em São Miguel. Faço muito essa subida porque cria trepadores.”

E deu ainda um toque extra de motivação para quem esteja a pensar pedalar por São Miguel: “As vistas ajudam muito, é uma ilha muito bonita.”

Gostaria que um dia a LA Alumínios-Credibom-Marcos Car lá estagiasse, garantindo que seriam cinco ou seis dias muito bem passados em São Miguel.

Evoluir nos Açores e chegar a profissional

Com uma realidade do ciclismo em São Miguel diferente de Portugal Continental, João Medeiros considera que é possível que mais corredores açorianos sigam o seu exemplo.

“Temos muitos talentos. Há vários cadetes que se podem mostrar daqui a quatro ou cinco anos numa equipa até profissional. Acho que, sendo das ilhas, acaba-se por ter outra visão. Talvez chamemos mais a atenção porque não somos muitos. Conseguimos evoluir lá, mas depois é preciso vir para cá para ganhar experiência de correr num pelotão e tudo mais”, salientou.

Recordou que ser profissional foi algo que sempre quis: “Sabia que ia ter de acontecer algum dia. Felizmente ocorreu a oportunidade e agarrei-a. Tenho agarrado ao máximo. Tenho conhecido o mundo do ciclismo. Em São Miguel, apesar de termos corridas, não é nada como aqui.”

A importância do trabalho mental

Luta pela camisola branca da juventude na Volta a Portugal, mas muito atento ao que pode fazer na geral. João Medeiros é um ciclista de convicções, com planos bem delineados, ambição para os concretizar e o cuidado de se preparar física e mentalmente para os desafios.

Está na Volta a Portugal a querer afirmar-se, sempre com os olhos postos em como pode evoluir como atleta.

A Volta é muito importante fisicamente. Mas acho que grande parte dos pormenores faz-se no psicológico.

Têm sido três temporadas em crescendo, ainda que acabe por só contabilizar duas: “O ano passado foi a minha primeira época como profissional a sério. Em 2020, por causa da covid-19, não fiz quase prova nenhuma.”

Acrescentou: “Em 2021 aprendi muito. Este ano sinto que grande parte da minha evolução tem vindo daí, dessa aprendizagem. Estou bastante satisfeito. É continuar a trabalhar e continuar a acreditar.”

Essa evolução permitiu-lhe surgir na Volta a Portugal mais confiante e preparar-se de forma diferente. “A Volta é muito importante fisicamente. Mas acho que grande parte dos pormenores faz-se no psicológico. Por isso, acho que às vezes temos bons atletas, mas se não forem bons psicologicamente, na Volta passam mal”, afirmou.

Com apenas 22 anos, revela valorizar a importância do trabalho psicológico numa modalidade tão exigente. Explicou o processo que aplica para garantir que alcança os seus objetivos.

“Acreditar em mim, principalmente. Acreditar que consigo estar na luta, pensar que quero sofrer. São muitos dias a sofrer e chega a um momento que não queremos mais. Então é preciso preparar a cabeça. ‘Eu tenho de estar aqui, tenho de fazer isto e aquilo’. Acho que muito da preparação passa por isso: querer sofrer e acreditar em nós próprios.”

Estou em 19º na geral, que é outra ambição que tenho, embora também tenha a juventude. Só tenho de acreditar.

Também crê a 100% que o profissionalismo no ciclismo é o seu caminho.

“Esta Volta tem-me feito acreditar bastante. A época já o tinha feito. Acho que tenho feito uma temporada bastante razoável. Mas esta Volta está a fazer-me acreditar que sim.”

Mas há mais em que acredita e já nesta Volta: “Estou em 19º na geral que é outra ambição que tenho, embora também tenha a juventude. Só tenho de acreditar. Estou no top 20, perto do top 15… Tudo pode acontecer.”

Ambição pela camisola branca, mas com olho em algo mais

A conversa até começou pela luta pela classificação da juventude, assumida desde o início da corrida. Porém, Medeiros defende que ambicionando um pouco mais, até pode ser benéfico para esse objetivo.

A equipa da LA Alumínios-Credibom-Marcos Car que partiu para a Volta a Portugal de 2022.

“Eu olho para branca, mas também olho para a geral. Acho que não posso estar só de olho na juventude. Acho que tenho de estar de olho em fazer uma boa corrida. Se me focar muito no ciclista que está em primeiro na juventude, se calhar, vou sofrer para estar com ele e não com os da frente. Por isso, olho mais à frente”, explicou.

Ou seja, tentando acompanhar os homens que estão interessados em bons resultados na geral, é a forma que considera ser a melhor para evoluir ainda mais como atleta.

Onze dias é uma prova muito longa. Este ano já sei para o que venho. Preparei-me de forma diferente, principalmente a nível mental.

Esta ambição surge depois de na estreia na Volta, em 2021, ter ficado a conhecer-se melhor.

“Não conhecia o meu corpo. Onze dias de competição é uma prova muito longa. Este ano já sei para o que venho. Preparei-me de forma diferente, principalmente mentalmente”, realçou.

Já no ano passado, Hernâni Brôco tinha motivado Medeiros a estar na luta pela juventude, uma classificação que este projeto da LA Alumínios-Credibom-Marcos Car – sempre a dar oportunidades aos jovens portugueses – ganhou em 2019, com Emanuel Duarte.

Missão difícil, mas o mote é: acreditar até ao fim

Medeiros foi o vencedor da juventude no Troféu Joaquim Agostinho, uma das mais importantes provas do ciclismo nacional. No ano passado venceu esta classificação no Grande Prémio Douro Internacional.

Na Volta a Portugal, a três etapas do fim, está em terceiro, a 4:59 minutos do espanhol Jokin Murguialday (Caja Rural-Seguros RGA), com outro português também na luta: Hélder Gonçalves (Kelly-Simoldes-UDO), no segundo lugar, a 2:59.

Medeiros não se foca apenas na etapa de domingo, da Senhora da Graça. “A etapa de Fafe [este sábado], também tem muito sobe e desce e tudo pode acontecer. Só tenho de acreditar que é possível”, afirmou.

Ainda muito pode acontecer. Eles podem ter um dia mau e eu posso ter um dia bom. Temos de continuar a acreditar.

Quanto à Senhora da Graça: “Perde-se ou ganha-se tempo com facilidade.”

A missão de ultrapassar Gonçalves e Murguialday não se apresenta fácil. Mas, lá está, acreditar que é possível, é a sua forma de estar. A sua forma de encarar os desafios do ciclismo.

“Ainda muito pode acontecer. Eles podem ter um dia mau e eu posso ter um dia bom. Temos de continuar a acreditar e é com essa esperança que eu vou até ao fim.”


Fotografia principal: Elisabete Silva/GoRide.pt

Restantes fotografias: Agnelo Quelhas/Podium Events

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Elisabete Silva
Quando uma vasta experiência em jornalismo se junta a uma paixão imensa por bicicletas, o resultado é como música para os ouvidos do mais curioso ciclista. E é isso que esta mestre da modalidade acrescenta ao projeto GoRide.

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