Não é fácil ver Vera Looser sem que esteja a sorrir. Mesmo depois de uma corrida difícil, sorri… Bom, admitiu que até disse várias asneiras quando enfrentou terrenos complicados numa etapa do Titan Desert de Almería, mas ainda assim, cortou a meta e… sorriu, demonstrando o quanto gosta de participar em grandes corridas de BTT. Ganhe ou não.

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Vera Looser destacou-se no Titan Desert de Marrocos (segunda classificada) e no de Almería (que venceu). A sua história começa na Namínia, passa pela Alemanha e África do Sul e tem presentemente a Suíça como casa. Mas claro que passa bastante tempo em viagem a competir, juntamente com o marido Konny Looser, um bicampeão do Titan marroquino e também vencedor em Espanha.

A corredora, de 29 anos, conversou com o GoRide aquando da sua passagem por Almería, mostrando em não ter problemas em dizer as coisas como elas são. Não é atleta a tempo inteiro, dividindo o dia entre treinos e o trabalho na contabilidade, que faz a partir de casa. Fala três línguas – inglês, alemão e afrikaans – e tem dificuldades em escolher uma corrida preferida porque, salientou, ainda há tantas por fazer.

Gosta da pedalar na estrada, mas sente-se melhor no mundo do BTT e quer ver mais mulheres nas provas, para que possa aumentar a concorrência. Diz que assim é muito mais motivante competir e uma vitória sabe bem melhor.

Provavelmente, sem ele [Konny Looser], teria acabado a carreira muito cedo. Teria ido trabalhar

Contou que nasceu na Namíbia, de onde são os pais. Em criança mudou-se para a Alemanha, onde, aos oito anos, começou a andar de bicicleta e aos nove já competia. Mais tarde foi estudar para a África do Sul, onde conheceu Konny Looser – que estava no país para uma corrida -, com quem acabou por casar.

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E não hesita em dizer: “Foi assim que comecei a fazer todas estas corridas espetaculares. Por causa do Konny. Provavelmente, sem ele, teria acabado a carreira muito cedo. Teria ido trabalhar.”

É no BTT que está o seu coração, como diz, mas vai piscando o olho à estrada. Aliás, continua a treinar bastante nesta vertente, mesmo que o pensamento seja uma prova de BTT. Este ano esteve na equipa do antigo ciclista Andy Schleck.

“Correr pela equipa do Andy Schleck foi uma situação em que todos ficaram a ganhar. Em março, eles procuravam mais ciclistas porque havia muita gente a ficar de fora por causa da covid e lesões. Perguntaram-me e eu queria competir na estrada porque iam realizar-se os Jogos da Commonwealth e eu queria ter quilómetros nas pernas na estrada. Mas não estava à procura de uma equipa para o ciclismo de estrada. O meu coração não está lá”, explicou.

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Foi quarta nessa corrida de fundo, mas a experiência não irá continuar em 2023 já que a equipa fechou portas. Vera Looser recorda a passagem por aquela estrutura como “muito boa”. “Havia boas ciclistas e dava-nos muito bem”, disse. Um ponto mais importante do que possa parecer à partida.

Quando questionada se prefere BTT ou estrada, Vera Looser não hesitou na resposta: “Prefiro o BTT… Prefiro as pessoas no BTT. São mais abertas, amigáveis, mais próximas da natureza. No ciclismo de estrada é mais sobre equipas. Sinto que no ciclismo feminino há mais mesquinhice. No BTT corremos umas contra as outras, mas no final somos todas amigas.”

Mas se é no BTT que se sente melhor, há momentos em que a estrada a chama. Principalmente quando regressa a casa: “Continuo a chamar casa à Namíbia.”

Soma nove títulos de campeã nacional e admite o prazer que é usar essa camisola durante todo o ano. “E os campeonatos são em fevereiro, que é uma boa altura para ir a casa e escapar ao inverno na Europa!”

É na Suíça que vive, apesar de admitir ser uma corredora de “bom tempo”. Revelou que um dia normal passa por trabalhar uma ou duas horas de manhã, para depois ir treinar e trabalhar novamente à tarde, se for necessário. Disse que a contabilidade ocupa-lhe cerca de três horas por dia. E mais um pormenor importante: “Gosto de dormir!”

A combinação perfeita entre ciclismo e contabilidade

Não tendo patrocinadores para competir a tempo inteiro, Vera Looser admite que não é fácil, mas com a contabilidade “a pagar as contas”, também acaba por libertar-se de alguma pressão que a alta competição pode trazer.

“Trabalho em contabilidade e é uma combinação muito boa. Mantém o meu cérebro ocupado e o ciclismo é o meu hobby. Assim, é sempre divertido porque eu não o tenho de fazer, não estou dependente de bons resultados, porque tenho o meu trabalho para pagar as contas”, salientou.

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E a verdade é que vai alcançando bons resultados. “Treino muito, claro. Trabalhar três horas por dia não é nada. Tive uma boa época este ano, na estrada e no BTT. Em março tive covid três dias antes do Cape Epic que era um objetivo da temporada. Mas vendo agora as coisas, deu para descansar em março e partir daí [para a temporada]. Agora estou mais fresca que outras corredoras”, referiu.

Não gosto muito de subir. Gosto de uma combinação de subidas e descidas. Por isso, a Cape Epic preenche esse gosto durante oito dias!

Tem dificuldades em eleger uma corrida favorita, pois pensa de imediato nas que ainda não fez. “Isso é difícil… Há tantas corridas boas e tantas que ainda não fiz… A Cape Epic é muito especial. Também a mais difícil. Gosto do terreno muito técnico, gosto da organização, é muito boa. Se olharmos para o Titan de Marrocos não é nada técnico e eu sou uma corredora muito técnica”, afirmou.

Também não é muito amiga de subidas. “Se vamos para as Dolomitas, em Itália, por exemplo, temos mais de três mil metros de acumulado e já não é para mim. Não gosto muito de subir. Gosto de uma combinação de subidas e descidas. Por isso, a Cape Epic preenche esse gosto durante oito dias!”

Na etapa rainha do Titan Desert de Almería, Looser confessou: “Disse muitas asneiras a etapa toda!” Mas no final era uma mulher feliz e satisfeita com a corrida e pela vitória final.

No topo da lista das que quer fazer está a BC Bike, no Canadá: “É muito técnica e tem muitos trilhos. Uma amiga fez a corrida e disse-me que ao fim de uns dias já não se consegue ver trilhos à frente porque anda-se tanto neles.”

Mais mulheres para aumentar a concorrência

O gosto pela competição faz com que Vera Looser não goste de facilidades. Em Almería dominou e ganhou com quase uma hora de vantagem sobre a segunda classificada.

“Foi uma corrida fácil de ganhar, porque a concorrência não foi muita. Gostaria de ter mais. Quero divertir-me, mas quero mais rivais. Sabe melhor se houver mais concorrência”, frisou.

Temos de perceber que como mulheres nunca vamos ser tão fortes como os homens […] Tentem… Se calhar numa corrida menos difícil para começar. Andem de bicicleta!

Mas a realidade é que ainda não há muitas mulheres neste tipo de provas. “Está a crescer. Já me perguntaram porque não há tantas mulheres. Elas têm medo? Eu também não percebo. Nós temos filhos… Nós facilmente podemos fazer isto! Podem ser mais lentas que os homens porque a nossa genética não permite que sejamos mais rápidas, mas podemos fazer isto facilmente”, afirmou.

E acrescentou: “Temos de perceber que como mulheres nunca vamos ser tão fortes como os homens. Se se treina com o companheiro não podemos desanimar. Uma das formas é a mulher levar uma e-bike e o homem uma normal. Assim treinam juntos e é na mesma um excelente treino para a mulher. E depois pode-se passar para a bicicleta normal. Tentem… Se calhar numa corrida menos difícil para começar. Andem de bicicleta!”

Vera treina algumas vezes com o marido, Konny Looser. Mas, no caso do casal, há a diferença de objetivos. “Ele é muito mais rápido do que eu. Às vezes ele segue e depois volta para trás para me apanhar”, contou.

“Gosto de andar com ele, mas eu tenho o meu programa de treino e ele gosta daqueles treinos longos, por isso temos programas diferentes.” Mas o facto de ambos serem atletas – Konny a tempo inteiro – é uma ajuda na relação como ambos consideram, pois compreendem os sacrifícios que têm de fazer.

“Nós somos uma boa equipa. Acho que somos bons precisamente porque fazemos muita coisa juntos. Se uma pessoa na relação tem de trabalhar full-time não é a mesma coisa. Nós podemos viajar juntos. Sabemos como é… Sabemos que não podemos andar sempre em festas, que não podemos andar a comer gelados o dia todo… Isso facilita a nossa relação.”

É um casal de sucesso e acarinhado entre todos os corredores e (não só) no meio do BTT. E vão continuar juntos a procurar desafios para enfrentar nas suas bicicletas.

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Fotografias: Skoda Titan Desert Morocco e Skoda Titan Desert Almería

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Elisabete Silva
Quando uma vasta experiência em jornalismo se junta a uma paixão imensa por bicicletas, o resultado é como música para os ouvidos do mais curioso ciclista. E é isso que esta mestre da modalidade acrescenta ao projeto GoRide.

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