Quanto maior for o desafio, melhor! Konny Looser não gosta de coisas fáceis. Está sempre pronto a testar-se, procurando novas oportunidades para não cair monotonia de fazer as mesmas corridas ano após ano. É um especialista do BTT, mas pisca o olho ao gravel. O GoRide.pt esteve à conversa em Almería com o vencedor do Skoda Titan Desert naquela região espanhola, depois de ter ganho a prova em Marrocos.

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Em África até foi a segunda vitória consecutiva. A presença em Espanha centrou-se precisamente na forma de estar do suíço, de 33 anos, no desporto, em querer experimentar corridas diferentes. Apesar de serem ambas por etapas, são diferentes: a primeira mais plana, a segunda com mais subidas e um pouco mais ao seu estilo.

E o mais importante? Ter a mulher a seu lado… Menos nas corridas, pois cada um vai ao seu ritmo. Vera Looser também compete e ganhou igualmente o Skoda Titan Desert de Almería, depois do segundo lugar em Marrocos.

Quanto mais difícil a corrida melhor para ti, assim parece…

Sim! Em miúdo comecei no cross-country (XCO), mas acabei por passar para as maratonas porque gosto de treinar muito! E em cross-country temos de fazer voltas e eu gosto de explorar a área!

O XCO era aborrecido?

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Não… Era diferente. Era um esforço intenso, curto, muita luta pelo posicionamento. Por exemplo, se cometeres um erro na partida, a corrida acabou. Na maratona é um pouco mais calmo… Ainda que às vezes também bastante stressante!

Há também muitos corredores a lutar pelo posicionamento e depende do percurso. Eu gosto do misto. Em Marrocos é mais plano, aqui [Almería] há mais subidas… Gosto do desafio.

Na primeira edição [do Skoda Titan Desert Marrocos] eu fui o corredor inesperado e na segunda era o que todos queriam bater. Foi diferente

Mas preferes um pouco mais as subidas?

Sim, mas às vezes as subidas também podem ser aborrecidas, porque se o nível dos corredores não for idêntico então ganha-se muita vantagem. Às vezes é melhor menos subidas.

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Na primeira etapa do Skoda Titan Desert Almería, o vento foi um fator muito importante. Houve aquelas diferenças, o que mostra que uma corrida plana pode ter mais interesse. Os corredores podem estar mais próximos e serem mais táticos. Nas subidas é mais a ritmo e atacar no certo momento.

Foi um marco importante na tua carreira ganhar em Marrocos e já por duas vezes?

Sim. Eu quando corro, corro para ganhar. Da primeira vez talvez tenha tido alguma sorte. Não sabia ao que ia com a navegação. Da segunda vez já houve mais pressão, porque esperava ganhar outra vez e estavam todos a olhar para mim. Em 2021, eu fui o corredor inesperado, este ano era o que todos queriam bater. Foi diferente.

Gostas de ser o corredor a bater?

Há dois lados. Por um é uma honra. Por outro, há tanta coisa que não controlamos. Vê o Miquel Paus [principal adversário de Looser em Almería], furou [na penúltima etapa]. Teve azar no pior momento. Pode acontecer-me. Tens de ser muito inteligente e estar sempre concentrado.

Sem planos para as corridas e sem estar “preso” aos números

Em Almería, Konny Looser pareceu ter a corrida muito bem estudada e tudo sob controlo do primeiro ao último quilómetro da prova. No entanto, não se pense que faz grandes planos. Nem sequer gosta de ciclocomputadores. É atleta de lidar com as sensações e confiar no instinto, sem estar “preso” aos números. Uma postura que tanto difere do ciclismo atual.

Num ou noutro treino abre uma exceção, de resto, quanto a tecnologia, só utiliza o GPS para navegar nas corridas. Sem ciclocomputador considera que está mais livre da pressão que esses números, que hoje em dia fazem parte do treino e competição dos corredores, pode trazer. E explica porquê.

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Sou muito forte mentalmente. Mas tenho extremos: consigo estar muito em alta, mas também consigo estar muito em baixo

Como preparas as corridas?

Não faço um plano antes da corrida. Faço durante. Se fazes um e corre mal, ficas nervoso e podes cometer mais erros. Decides na corrida. Confio nos meus instintos. Nunca corro com números, corro sem ciclocomputador. Mesmo nos treinos só uso em específicos de intervalo.

Isso demonstra que mentalmente tens de ser muito forte?

E sou muito forte mentalmente. Mas tenho extremos: consigo estar muito em alta, mas também consigo estar muito em baixo. Por exemplo, se se treinar com os números e não forem bons antes de uma prova, a mente já está quebrada, a confiança está em baixo.

Se se for a uma corrida e não se está a 100%, mas o tempo está mau e és bom nessas condições, então é mais importante ter a mentalidade certa, do que bons números.

Se se for um corredor que vá fazer uma prova por divertimento, então recomendo que veja os números. É preciso ter cautela, mas se se quer ir para ganhar, os números são inúteis.

Que corrida ou corridas foram mais difíceis para ti, que te levaram ao limite?

A Ultramaratona na Namíbia, 370 quilómetros, e outra na Áustria, sete mil de acumulado, 210 quilómetros. Mas lá está, sei que o corpo aguenta. Na Áustria ganhei cinco vezes, mas em três edições apanhei o pior tempo que se possa imaginar. Mentalmente é uma luta. Na Namíbia ganhei seis vezes, mas lá o problema é lutar contra o meu estômago. Tive de vomitar, não pude comer durante 10 horas! São coisas que não conseguimos controlar.

O pior para mim foi no ano passado, na ultramaratona em Espanha. Também havia navegação. O meu GPS cometeu um erro e foi a primeira vez que corri assim. Cometi um erro e a corrida acabou. E aconteceu ao fim de umas sete horas. Mentalmente está-se no limite e comete-se um erro… Foi uma lição!

Depois fui a Marrocos e ganhei a corrida com navegação e ganhei outra vez este ano!

Mais foco no treino e menos nas redes sociais

Na Suíça, a realidade de quem optou por este tipo de BTT não é fácil. Se o XCO e, claro, a estrada têm muito sucesso, Konny Looser conta como para ele é muito difícil arranjar patrocínios e ser atleta profissional, pois no seu país o que faz tem pouco impacto mediático.

Atualmente não representa nenhuma equipa, o que obriga a ter de tratar mais da sua imagem, não podendo apenas focar-se em treinar e competir. São as exigências de um mundo muito dependente de redes sociais e Looser sabe que tem de dedicar o seu tempo a “mostrar-se”, tendo também um site próprio.

Além disso, sempre que vai para uma corrida, tem de tratar da logística. Ainda assim, não desiste de continuar a sua carreira, tentando adaptar-se o melhor que pode a todo o trabalho extra-corridas que tem de realizar.

No passado, eu era profissional, era convidado e corria. Agora há mais as redes sociais. Não gosto tanto

Como atleta profissional deste tipo de provas longas, o que é para ti um dia normal?

De momento inclui muitas viagens! Gosto de ter uma rotina. Gosto de me levantar cedo, 6h45/7 horas, começo a treinar às 9. Se tenho uma sessão longa, almoço e faço uma sesta. Poderei fazer outro treino à tarde. E como não tenho mecânico, tenho de tratar da minha bicicleta.

Este ano, como não tenho equipa, tenho de fazer tudo a nível de logística. Tenho o meu site, pelo que também escrevo, faço a newsletter para o patrocinador… Em julho tive esse foco de arranjar patrocínios.

Nas corridas tenho os organizadores a quererem algo… As coisas mudaram muito. No passado, eu era profissional, era convidado e corria. Agora há mais as redes sociais. Não gosto tanto. Para mim tem de haver uma diferença entre correr profissionalmente e as redes sociais. O meu trabalho deveria ser correr.

Realidade diferente de outras vertentes…

Na Suíça é visto quase como se não trabalhasses. Em África reagem logo como se sendo um profissional a tempo inteiro. Lá querem-me nas corridas, na Suíça às vezes tenho de pagar para competir.

Este ano ganhei os campeonatos nacionais e cinco dias depois saiu uma pequena notícia… A estrada e o XCO são diferentes. Às vezes é frustrante para mim. É difícil. Foi por isso que comecei a fazer corridas diferentes. Por isso fiz as ultramaratonas e foi também por isso que vim aqui, ao Skoda Titan Desert Almería.

No próximo ano quero ir aos Estados Unidos fazer algumas provas [de gravel]. Quero ter novas corridas na calendário como a La Ruta, na Costa Rica [prova de BTT]

Já tens muitos anos de carreira. O que te falta fazer?

O gravel está a ficar popular. Na Suíça, este ano, só corri nos campeonatos nacionais. Não consigo correr as mesmas corridas vezes sem conta. Comecei aos 21 anos, sou profissional há 12. Na Suíça as pessoas mudam em média de emprego ao fim de sete anos!

No gravel as corridas são longas. No próximo ano quero ir aos Estados Unidos fazer algumas provas. Quero ter novas corridas na calendário como a La Ruta, na Costa Rica [prova de BTT]. Mas para o gravel preciso de patrocinador de bicicleta. O meu não faz bicicletas de gravel.

A importância de Vera Looser na sua vida

Ter alguém que compreende os sacrifícios de se ser atleta de alta competição é essencial para Konny Looser. O único senão de Vera também competir nas mesmas corridas, é que não só não a tem na meta quando acaba uma prova, como também não consegue estar ele à espera de Vera, pois tem de se preocupar em recuperar para o dia seguinte, enquanto a mulher ainda não terminou a sua corrida.

Mas ambos compreendem e em Almería, Konny até conseguiu estar na meta, no último dia, à espera de Vera para celebrarem juntos a vitória que alcançaram.

Estares casado com alguém que entenda perfeitamente os sacrifícios que fazes é essencial para ti?

É muito importante. Ela é também a minha melhor amiga. Nas últimas cinco semanas viajámos juntos por Espanha e fizemos tudo juntos. Ela está sempre ao meu lado. Se não está… Não corro tão bem, é como se faltasse algo.

O problema é que quando se é corredor profissional, começamos como que a perder amigos. Este ano viajámos tanto e temos amigos na comunidade das competições, mas quando pára em setembro/outubro, só os vemos em abril.

Os que temos em casa é difícil porque convidam-nos para um churrasco ou para um aniversário e dizemos que não porque estamos numa corrida. Mas ela [Vera Looser] está sempre ao meu lado.

E também percebe. Nunca discutimos sobre o que comer. Eu como saudável e ela também, ela não bebe porque não sai e eu também. Partilhamos o mesmo estilo de vida, a mesma paixão.

Por outro lado, se eu estou a acabar uma corrida, ela nunca está lá. Mas depois sinto-me mal porque não estou no final dela porque já estou a fazer a recuperação, na massagem. Se ela ganha, eu não estou lá. Mas não posso. Ela compreende!

Se em algumas corridas preciso de alimentação, quando não há apoio, e se ela não está a competir, ela ajuda-me.

Fotografias: Skoda Titan Desert Almería e Marrocos

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Elisabete Silva
Quando uma vasta experiência em jornalismo se junta a uma paixão imensa por bicicletas, o resultado é como música para os ouvidos do mais curioso ciclista. E é isso que esta mestre da modalidade acrescenta ao projeto GoRide.

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