O ciclismo, tal como todas as modalidades desportivas, está a adaptar-se à nova realidade Covid-19. Hernâni Brôco, colaborador regular do projeto GoRide, fisioterapeuta profissional e diretor da LA Alumínios-LA Sport, transporta-nos para dentro da Volta a Portugal 2020 e conta-nos como foi competir ao mais alto nível em plena pandemia.

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Incertezas. É isto que mais existe numa altura em que toda e qualquer prova de ciclismo tem de estar dependente do estado da evolução da pandemia. Mas os treinos, a competição e as rodas não podem parar de rolar… Hernâni relata-nos como é estar por dentro de uma competição como a Volta a Portugal que acabou por acontecer este ano, explica-nos o que muda no seio de uma equipa profissional com toda esta situação, revela objetivos de futuro da LA Alumínios-LA Sport e ainda fala do seu incrível percurso, que está em pleno. Vamos a isso.

Dentro da Volta a Portugal 2020 com Hernâni Brôco

Como é gerir uma equipa profissional sabendo que a qualquer momento a pandemia pode deitar toda a estratégia por água abaixo?

Perante uma situação nova e pela qual nunca ninguém tinha passado, tivemos de adaptar os treinos e trabalhar a parte anímica dos atletas. No entanto conseguimos chegar a bom porto, com o apoio incondicional da empresa LA Alumínios, que esteve sempre ao nosso lado, nunca faltando com nada para enfrentarmos a situação com conforto.

Todos estávamos conscientes que, a qualquer momento, o calendário podia ser alterado, como foi por diversas vezes, mas tentei sempre ter o grupo coeso e motivado para honrar quem nunca baixou os braços durante a pandemia, o Sr. Luís d´Almeida. Só podíamos treinar e preparar-nos para quando as competições fossem para a estrada, honrando, assim, o bom nome da equipa e de quem acreditou em nós.

A ameaça da pandemia afeta o estado de espírito dos ciclistas? O que muda?

O que afetou mais o estado de espírito foram e são os momentos de incerteza de realização dos eventos, criados pelo avançar e recuar das organizações dos mesmos. Até à hora de partida vivemos na incerteza se vamos ou não para a estrada, pelo que, por vezes, nos momentos de foco não se consegue estar a 100%.

Dentro da Volta a Portugal 2020

“A grande mudança é trabalharmos sem certezas do que temos pela frente.”

Esta é a grande dificuldade que temos nos dias de hoje, porque relativamente às regras sanitárias impostas estamos a lidar bem com tudo. A grande mudança é trabalharmos sem certezas do que temos pela frente e isto incomoda bastante quem trabalha todos os dias com objetivos de competir. Não tendo as datas e as competições asseguradas, torna-se por vezes difícil gerir a ansiedade dos atletas e do staff.

A LA Alumínios-LA Sport atingiu os objetivos preestabelecidos nesta edição especial da Volta a Portugal?

Os objetivos para esta Volta a Portugal, estabelecidos na fase inicial, não foram alcançados, visto que queríamos lutar pela camisola da montanha e colocar um atleta no top 10 (o Emanuel Duarte). Logo no primeiro e segundo dias, o Emanuel esteve envolvido em duas quedas, o que limitou as nossas aspirações a um lugar de honra na geral. No entanto demos a volta à situação e fomos em busca da vitória de etapa. Apesar de não o conseguirmos, estivemos todos os dias na frente da corrida com diversos atletas, dando, desta forma, retorno à equipa e aos patrocinadores que apoiam a equipa, em especial à empresa LA Alumínios.

“Destaco os 167 kms a solo do Marvin Schuelen…”

No fim, o balanço foi positivo, uma vez que fomos a equipa mais combativa ao longo desta Volta, com muitas horas de retorno e com as fugas diárias que tivemos. Destaco os 167 kms a solo do Marvin Schuelen…

Mesmo num ano tão difícil para todos, a prova realizou-se e o público acolheu o evento de forma efusiva… Fala-nos do passado, do presente e do futuro da Volta a Portugal…

A Volta a Portugal é um dos eventos mais importantes a nível nacional. Tivemos anos de glória criando um evento de referência nacional, no qual os adeptos vibram efusivamente com os atletas, criando multidões à passagem da caravana. Este ano foi evidente a diminuição de público devido à pandemia, mas foi importante a realização da mesma e temos de agradecer todo o empenho da Federação Portuguesa de Ciclismo, que lutou muito para que fosse possível a realização da prova em novas data, após a Podium tomar a decisão que nos timings habituais não seria viável a sua realização.

“Futuramente, quando conseguirmos todos vencer este estado pandémico, penso que a prova irá voltar ao protagonismo que tinha.”

Futuramente, quando conseguirmos todos vencer este estado pandémico, penso que a prova irá voltar ao protagonismo que tinha. Contudo, os organizadores e a Federação não podem durante a pandemia deixar os outros eventos “caírem”; ou seja, dentro das limitações impostas, o ciclismo tem de continuar a ser apoiado quer na formação de jovens quer no ciclismo profissional. Só assim o futuro estará garantido e poderemos voltar aos bons velhos tempos.

Sentes que o rendimento geral da equipa numa prova e a colocação de um competidor mais à frente na classificação está dependente do orçamento anual?

Não, este projeto visa a formação. Temos três anos em que criámos uma equipa de base, com resultados já importantes, como são exemplos a camisola azul na Volta ao Algarve, a camisola da juventude na Volta a Portugal e a vitória na Volta a Portugal do Futuro e em várias etapas em 2019. O nosso orçamento visa dar todas as condições através de meios para os atletas evoluírem e não apostar em atletas já formados e vencedores.

A vossa equipa será uma das mais jovens do pelotão: é estratégia ou uma eventualidade apenas?

A nossa estratégia é formar jovens e não ir buscar os melhores, temos como objetivo construir uma equipa jovem. Em 2019 começámos a colher os primeiros frutos do investimento nestes jovens atletas e acreditámos que com esta estratégia conseguiríamos muitos resultados de relevo, quer a nível nacional quer internacional. Nestes últimos dois anos tínhamos a possibilidade de ir buscar atletas mais velhos, mas a opção não passa por aí agora nem num futuro próximo. Queremos formar e construir um bloco coeso.

A nível pessoal, saudades da competição, há?

Não tenho saudades da competição como atleta, tenho saudades da competição atualmente como treinador. Tive a oportunidade de poder alcançar bons resultados (aqueles que os adversários deixaram!), mas fui um atleta realizado em todos os escalões pelos quais passei na minha carreira.

Dei o meu máximo durante os treinos e nas competições, levando sempre o corpo ao limite. Saí no momento que achei melhor, uma vez que achava que já tinha alcançado tudo o que consegui. Se queria mais? Claro que queria, mas o que consegui foi sem dúvida marcante e realizei-me pessoalmente. Agora é ganhar como treinador o que ficou por vencer como ciclista!

O que continuas a fazer igual ao que fazias quando ainda estavas no ativo?

Tudo mudou. Quando estava no ativo as rotinas eram diárias, estando 100% focado no ciclismo e nos estudos universitários. Concluí assim a licenciatura em fisioterapia. Agora tenho o privilégio de poder sair alguns dias para andar de bicicleta, mas apenas para desfrutar da modalidade mais bonita que existe. Não partilham também desta opinião?

Sabemos que existe um “Brôcozinho” que já pedala… Desejas que ele siga as passadas do pai?

O meu filho está na Escola de Ciclismo de Mato-Cheirinhos. Atualmente não tenho a intenção de que ele siga o meu percurso, o que quero para os meus filhos é que possam praticar desporto para poderem socializar de forma saudável e criarem rotinas desportivas que penso ser importantes. Numa fase inicial, era sempre a minha esposa que o levava aos treinos e às competições, devido também à minha vida profissional, mas também para não influenciar nas escolhas.

Hoje, ao fim de dois anos de competição e ao ver que ele gosta da modalidade, começo a ter outra perspetiva. Ele adora andar de bicicleta e está no ciclismo por diversão. Começo a ser um pai mais presente neste campo e, caso ele queira seguir o ciclismo, claro que tem o meu apoio. Não vou esconder que será sempre uma honra ver um filho optar por seguir o percurso do seu pai.

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