Há um momento nos nossos testes a bicicletas que deixam desde logo entender o que vem a seguir: é o momento em que abrimos a caixa e, com ambas as mãos, retiramos a ‘máquina’ da caixa. Isto porque conseguimos desde logo ‘medir’ um dos aspetos a que os BTTistas dão mais importância na escolha de uma bicicleta: o peso. Neste caso da Merida Ninety-Six RC 9000, sendo esta a mais bem equipada (e mais cara…) suspensão total da marca, a conclusão foi fácil de tirar, já que são apenas 10,9 kgs…

Este ponto, além de muitos outros que vemos já a seguir ao longo deste artigo, ajuda a justificar o facto de a bicicleta apresentar um preço recomendado a rondar os 9.000 euros. Uma quantia que tem sempre de significar componentes, quadro, desempenho e pormenores de topo, certo? Vejamos então o que nos espera nesta ‘maravilha’ em carbono.

Quadro que é referência

A Merida sempre foi uma marca de referência de qualidade no fabrico dos seus quadros, tanto em alumínio como em carbono. O fabricante germânico já nos habituou a altos padrões de qualidade e também a pequenos-grandes detalhes que saltam à vista, mesmo aos mais distraídos.

Merida Ninety-Six RC 9000

E podemos começar mesmo por aí, pelos pormenores menos habituais e que ajudam a classificar esta bike com o selo de topo de gama. Exemplos concretos? Fácil: a guia de corrente que ajuda a manter esse componente sempre no sítio, no que diz respeito ao monoprato de 34 dentes produzido pela RaceFace. O espigão telescópico que acrescenta versatilidade na hora de descer mais depressa entre os obstáculos e as proteções do quadro, todas no sítio certo e com o objetivo de salvaguardar uma estrutura em carbono pensada com mestria.

O espigão telescópico acrescenta versatilidade na hora de descer mais depressa entre os obstáculos.

Ora bem, falando do quadro, e embora a Merida se encontre afastada há um par de anos da competição, a nível oficial com uma equipa de fábrica, sabe-se que a marca teve sempre uma relação próxima das corridas de XC e XCM, o que é imprescindível para a evolução dinâmica das ‘bikes’.

É certamente desse historial que vem todo um ‘know how’ para fazer evoluir os quadros em termos de geometria, torções, durabilidade e outros argumentos que mais tarde podem fazer a diferença quando chegam às mãos dos utilizadores.

Não nos esqueçamos que falar de Merida no XC é falar de José Antonio Hermida (ver vídeo mais abaixo), um nosso vizinho espanhol que vestiu as cores da marca em 2004 e 2015 e que tantas vitórias alcançou. Representou o seu país com ‘bikes’ Merida em três olimpíadas (2004, 2008 e 2021), tendo sido medalha de prata em Atenas 2004.

Após alguns kms…

A pensar nisso, assim que nos colocamos em cima de máquina concebida para rolar rápido, em qualquer terreno ou circunstância, percebemos que o objetivo da conceção da ‘bike’ (totalmente conseguido pelo fabricante!) é proporcionar a nossa melhor melhor ‘versão’ do Hermida, para andarmos rápido, ao mais rápido que nos for possível. Esta é uma bike rápida, nota-se cedo, e começamos logo a imaginar como se comportará a subir.

Somos incentivados em cada momento a colocarmos força nos ‘cranks’ e a passar por cima de tudo, literalmente. Contudo, e regressando ao ‘assunto quadro’, num contacto inicial tivemos de nos habituar à sua geometria e inclusive realizar um ou outro ajuste no selim (em altura e em distância para com o guiador). Nada de mais, ficámos prontos para a ‘corrida’ logo a seguir!

E ficámos, talvez, com as melhores sensações ao comandos de uma Merida. Provavelmente, devido a esta nova geometria e ao novo sistema P-Flex. O quadro da Merida Ninety-Six RC 9000 parece igual ao de muitas outras bicicletas de XC ou deste semento, mas integra algumas soluções técnicas e pequenos detalhes que chamam a atenção tanto à vista, como no desempenho.

Uma exímia apetência para ‘trepar’ subidas técnicas e descer pendentes ainda mais exigentes.

Desde logo, este quadro conta com produção assente na recente tecnologia nano Matrix Carbon, contendo partículas nano que aumentam a resistência do carbono em 40%, garante a marca. Sempre que pedalamos desejamos eficiência e desempenho no movimento, algo que encontramos, neste caso, através de uma exímia apetência para ‘trepar’ subidas técnicas e descer pendentes ainda mais exigentes, repletas de pedras soltas, raízes, regos, galhos, folhas… Os típicos trilhos de inverno, sempre traiçoeiros.

Confessamos que o espigão telescópico Fox Transfer, que funciona na perfeição, nos deu uma grande ajuda em muitas descidas das serras aqui do Oeste! Além disso, e analisando melhor o desempenho, é um facto que conseguimos colocar a roda da frente onde queremos, que o cockpit permite-nos ‘trabalhar’ bem, sendo que a estrela, aqui, é o guiador em carbono da ‘casa’, com 740 mm.

O ângulo da cabeça do quadro é de 68,5 graus, com o tubo superior com 473 mm (no tamanho L) e um tubo inferior bastante baixo, permite-nos perceber que esta bicicleta não tem medo de nada, sendo multifacetada e ultrapassando ligeiramente o conceito de bicicleta XC/XCM, talvez.

Isto é, nas centenas de kms que percorremos, a Merida Ninety-Six RC 9000 revelou-se muito intuitiva e fácil de manobrar, não apenas pela leveza do conjunto, mas sim pelo centro de gravidade bastante baixo. Inclusive, reparámos que por vezes os ‘cranks’ tocavam no chão em percursos ou ‘single tracks’ que traçamos habitualmente aqui no nosso ‘quintal’. Algo a que é preciso dar atenção para evitar eventuais imprevistos; e algo que traz especial versatilidade nas manobras técnicas complicadas.

Outro parâmetro que também salta à vista é o ângulo do tubo do selim com 76,5 graus, um valor completamente exclusivo. Não nos recordamos de uma outra marca que adote tal geometria em bikes de XC ou XCM…

Sistema P-Flex

É o mais recente sistema de suspensão traseiro da marca e elimina as juntas/bielas entre a escora superior e a principal, culminando agora numa única peça que contribui para que o quadro seja ainda mais leve e rígido. De salientar o comprimento da escora anterior ou principal (435 mm), que assegura assim uma maior estabilidade sem nunca perdermos a agilidade.

Uma única peça que contribui para que o quadro seja ainda mais leve e rígido.

O amortecedor traseiro Fox Factory Float (com remote lockout) cumpre sempre muito bem a sua missão, mas, de certa forma, acaba muitas vezes por não ter de entrar em ação na filtragem das pequenas irregularidades ou na fase inicial da compressão: realizando um efeito nulo, por assim dizer, conferindo uma eficiência exemplar e imediata na pedalada. Como sentimos na ‘hardtail’, no fundo.

Em parceria, a suspensão frontal, sendo uma topo de gama bastante cara, leve e funcional, dá-nos uma enorme ajuda em todos os terrenos, sendo possível bloqueá-la, claro, quando sentimos essa necessidade. Dá gosto também gerir a relação de velocidades por causa da também habitual competência do conjunto Shimano XTR, neste caso com cassete 10-51.

Não cumprimos kms suficientes para percebermos se este ‘groupset’ pode vir a trazer problemas ou não, mas, se tivermos de apostar, temos a certeza que é sistema para milhares de kms. Sem falhas, mesmo com muitos detritos acumulados. Mas isto já sabemos, certo? Tal como sabemos que no campo da travagem o selo XTR é também sinónimo de eficácia.

Insistimos na extrema eficácia da transmissão e da travagem Shimano XTR. Não queremos dizer que outras marcas (a Sram, por exemplo) não garantam bons resultados, pelo contrário. Pelas bicicletas que temos testado mais a fundo, afirmamos categoricamente que o nível de qualidade, em todas as ‘barricadas’, está num patamar incrível. Especialmente nas transmissões… É por isso que os conjuntos mais acima nas gamas são tão caros, a juntar ao facto de serem extremamente leves.

Neste caso, não haverá problemas nestes capítulos, isso é certo. No que toca às rodas, idem, idem: as DT Swiss montadas são uma maravilha. Leves, estáveis, com a rigidez certa para, por um lado, ajudar a absorver as ‘peripécias’ do terreno e, por outro, resistirem aos impactos mais fortes. Juntamente com os Maxxis Recon Race, sobem e descem no mato muito melhor do que rolam no asfalto.

Ora, desta forma, o que dizer mais desta ‘delícia’ de bicicleta? Apenas que pode ser uma máquina infernal nas mãos (e pernas!) de um atleta bem treinado e em grande forma. ‘Despacha serviço’, rola bem, sobe melhor. Com os nossos ‘pesados’ 80 kgs a subir, às vezes pareceu-nos ir de e-bike…

Alguns destaques:

Espaço para duas grades de bidão

São poucas as bicicletas de suspensão total que permitem a possibilidade de duas grades de bidão desta forma. Uma grande vantagem para quem deseja levar esta ‘companhia’ em longos passeios e maratonas (e não gostam de usar mochila de hidratação).

Merida Ninety-Six RC 9000

Cablagem (totalmente) interna

A passagem dos cabos pelo interior dá o habitual ar ‘clean’ e agradável à bicicleta, além de trazer vantagens ao nível da lavagem, por exemplo. E esta RC 9000 diferencia-se pela colocação da entrada dos tubos junto ao aperto da coluna de direção e do avanço.

Merida Ninety-Six RC 9000

Espigão de selim telescópico

Para manter a bicicleta abaixo da fasquia dos 10 kgs, são muitos os que prescindem deste extra e preferem um espigão ‘fixo’. Nós, apesar de gostarmos muito de bikes leves (quem não gosta…?), somos fãs dos espigões telescópicos pela versatilidade que dão ao conjunto no momento de encarar as descidas mais técnicas.

Merida Ninety-Six RC 9000

Quadro bem protegido

Esta RC 9000 está devidamente salvaguardada nos locais mais vulneráveis a pedras ou gravilha que saltam, com as devidas proteções bem integradas. E são visivelmente agradáveis, ainda para mais.

Merida Ninety-Six RC 9000

Guia de corrente

Algo que, infelizmente, marca presença apenas nos modelos XC topo de gama. Mas acreditamos que muito em breve comece a aparecer em todas as gamas de BTT, visto que as vantagens são grandes e o monoprato está massificado.

Merida Ninety-Six RC 9000

(Boa) suspensão!

Sendo uma topo de gama XC, se não monta à frente uma SID da Rockshox, então é uma Fox de topo que se distingue entre o lote de componentes selecionado, normalmente. É o que acontece aqui, com o bom desempenho que conhecemos da Factory 32 Float SC com Kashima Coat e que referimos mais acima neste teste. Atenção: a montagem de pneus 2.4 pode ser mesmo ‘à pele’.

Merida Ninety-Six RC 9000

A nossa avaliação…

Ao investirmos um valor deste calibre numa bicicleta de XC, esperamos excelência e uma experiência total em qualquer trilho do género, certo? É o que obtemos com a Merida Ninety-Six RC 9000, certamente. E porque, acima do resto, encontrarmos aqui um quadro muito bem afinado em termos de construção, que faz com que consigamos andar num centro de gravidade baixo, estável, também devido à ajuda do sistema de amortecimento traseiro P-Flex.

Assim, dá a impressão de que esta é uma bicicleta que faz tudo bem: as suspensões agilizam a travessia de qualquer terreno, os travões e a transmissão Shimano XTR trazem fiabilidade e bom funcionamento, mesmo no meio da lama, água e areia. Tal como as rodas leves, rígidas e ‘absorventes’ de irregularidades dão um toque especial ao desempenho.

Além de que pormenores como o espigão telescópico, por exemplo, permitem agradar aos mais exigentes. Em suma, uma topo de gama é sempre uma… topo de gama.

Pontos mais positivos:

  • Toda a sua dinâmica transmitida pela bicicleta nos trilhos, principalmente quando é preciso puxar pela técnica.
  • A leveza de todo o conjunto, tendo em conta que é uma suspensão total. E esta levez traz ‘funcionalidade’, o que nos permite fazer tudo bem, praticamente.
  • Todo o conjunto de componentes selecionado, como não podia deixar de ser. Especialmente as suspensões, que nos ‘perdoam’ muitas das linhas mal escolhidas, tanto a descer como a subir.

Pontos a melhorar:

  • O sistema de bloqueio de suspensão Rock Shox Twistloc, que já havíamos encontrado num outro teste recente, nesse caso a uma suspensão total da Mondraker. Não é muito funcional, na prática, mas entendemos que acaba por ser assim, em parte, por causa da presença da montagem do sistema de bloqueio do espigão telescópico. Mas será preciso encontrar solução para isto!
  • Podia ser possível escolher entre mais cores de quadro disponíveis além destas duas. Até um programa de personalização seria interessante…
  • Este não é propriamente um ponto negativo, mas… será que a este preço não seria interessante encontrar na bicicleta um sistema de transmissão eletrónico?…

Todas as fotos:

Galeria de pormenores:

Especificações da Merida Ninety-Six RC 9000:

  • Quadro: Ninety-Six RC CF5 III
  • Suspensão frontal: Fox Factory 32 Float SC 100 mm
  • Amortecedor: Fox Factory Float (remote lockout)
  • Guiador: Merida Team CC 740 mm (carbono)
  • Avanço: Merida Team CC II 70 mm (no tamanho L) / alumínio
  • Punhos: Rock Shox TwistLoc grip
  • Rodas: DT Swiss XRC 1501 Spline One 30 mm
  • Pneus: Maxis Recon Race
  • Espigão: Fox Transfer 150 mm (no tamanho L)
  • Selim: Prologo Scratch M5 PAS
  • Pedaleiro: Raceface 34t 175 mm
  • Cassete: Shimano XTR 12x 10-51t
  • Desviador: Shimano XTR Shadow+ SGS 12x
  • Manípulos: Shimano SL -MT800-IL / Shimano XTR
  • Corrente: Shimano XTR 12x
  • Travões: Shimano XTR
  • Peso: 10,9 kgs
  • Preço: 8.899 euros

Site oficial:

Neste teste:

  • Texto: Nuno Margaça e Jorge D. Lopes
  • Fotografia e vídeo: Jorge D. Lopes
  • Riders: Nuno Margaça
  • Capacete: Polisport
  • Equipamento/roupa: Merida

Vídeo oficial da marca (com José Antonio Ermida):

The new NINETY-SIX RC - race ready and presented by José Antonio Hermida | TRACK AT FULL GAS

Vídeo oficial da marca (com Toni Ferreiro):

The brand new NINETY-SIX - trail ready and presented by Toni Ferreiro | TRAIL AT FULL GAS

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Nuno Margaça
Homem ou máquina? Ficamos na dúvida... Mas será que estar à beira de ter dez Titan Desert nas pernas não é suficiente para termos a resposta...? Um dos mentores do projeto GoRide.

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