Chegou discreto a Portugal em 2021. Um quase total desconhecido, que tinha como principal carta de apresentação a passagem pela Caja Rural-Seguros RGA. Mauricio Moreira mostrou-se logo na Volta ao Alentejo e afirmou-se na Volta a Portugal. Um ano depois sagrou-se o grande vencedor.

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Uma queda, 10 segundos e Amaro Antunes, tiraram-lhe a glória suprema na temporada passada. Em 2022 andou “desaparecido”, devido a lesões e à covid-19. Apareceu quando era necessário, triunfando no Grande Prémio Anicolor, a menos de duas semanas do arranque da Volta.

O menino de Salto que cresceu no mundo das bicicletas, filho de ciclista, conquistou uma corrida que só um sul-americano o havia feito antes. De um rolador que passava bem a média montanha, Mauricio Moreira revelou na Glassdrive-Q8-Anicolor que afinal era homem também com capacidade para a alta montanha.

Dois anos por cá e já tem no palmarés vitórias nas duas subidas mais míticas: Senhora da Graça e Torre. Mais do que isso, vence a Volta a Portugal aos 27 anos, deixando grande parte concorrência (que foi pouca de outras equipas) longe.

A humildade e a promessa de retribuir o companheirismo

A “rivalidade” foi com Frederico Figueiredo, o único pormenor que não lhe agradou nesta Volta. Não queria disputar a amarela com um companheiro de equipa.

Bom contrarrelogista, tal torna-o no ciclista mais completo do pelotão nacional na atualidade. E não se intimidou em mostrar o seu poderio sempre que tinha a oportunidade. Ganhou na Torre e andou a sprintar noutras etapas. Foi depois ganhar o contrrelógio final.

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Quis sempre não deixar dúvidas que era o mais forte. Porém, é humano! Fraquejou na subida ao Observatório de Vila Nova, em Miranda do Corvo, num daqueles momentos em que é bom relembrar a importância de se ter bons companheiros de equipa. António Carvalho salvou o dia a Moreira.

O agradecimento de Mauricio Moreira à preciosa ajuda de António Carvalho

Episódio idêntico na Senhora da Graça. Bem que tem de agradecer aos colegas que tem na Glassdrive-Q8-Anicolor. E a bom da verdade, foi o que fez. Bastaria a Frederico Figueiredo ter ido ao seu ritmo no Monte Farinha, o mesmo acontecendo com António Carvalho e este texto seria provavelmente sobre outro ciclista.

Mas não, ambos levaram Moreira à glória. O uruguaio não escondeu a importância desse apoio e até promete retribuir em 2023 sacrifício de Frederico Figueiredo (o camisola amarela até à última etapa), se tal se proporcionar.

Foto: João Fonseca Photographer

 

Este é um traço da sua personalidade. Moreira demonstra humildade perante todos aqueles que lhe deram a mão. Afinal, foi a formação portuguesa que o ajudou a voltar a acreditar no ciclismo como carreira. E foram os colegas que garantiram que chegaria ao contrarrelógio Porto-Gaia com a porta aberta para conquistar a Volta a Portugal.

Influência do pai

Filho de ciclista, foi como que natural para Mauricio Moreira enveredar pela modalidade. Desde cedo que mostrou ambição de ir mais além do seu país. O pai, Federico Moreira venceu seis vezes a Volta ao Uruguai, representou o país em dois Jogos Olímpicos e ainda foi uma medalha de ouro nos Jogos Pan-Americanos, na pista.

Moreira contou uma vez numa entrevista ao El País (do Uruguai) como a família vivia no mundo do ciclismo. Era quase inevitável que Mauricio se tornasse corredor.

Ao ganhar a Volta a Portugal reagiu dizendo que o fez ao estilo do pai. Recordou que Federico Moreira alcançava vitórias sendo forte no contrarrelógio, ainda que referindo que no Uruguai, as corridas não são tão montanhosas.

Tem ainda um irmão, também ele chamado Federico. É dois anos mais velho e ficou pelo Uruguai. Seguiu as pisadas do pai, somando vitórias nas provas do seu país.

A luta por um sonho até ao pódio em Gaia

Começou muito novo e ainda na adolescência foi para o Brasil. Referiu que foi o teste para saber se queria mesmo ser profissional. Tinha então 14 anos. Aos 18 regressou a casa e competiu no seu país, mas sempre de olhos postos numa viagem até à Europa.

Era o passo que teria dar para ser profissional e para sonhar com grande vitórias, nas maiores provas de ciclismo.

A equipa amadora da Caja Rural deu-lhe essa oportunidade em 2016. Dois anos depois, subiu à estrutura profissional depois de alguns triunfos nas provas amadoras espanholas.

Contudo, na equipa principal nem tudo correu bem. Apenas um triunfo numa etapa da Boucles de la Mayenne, a sua primeira como profissional, alguns resultados de nota, mas nada que garantisse uma renovação de contrato.

Contou com várias presenças em provas portuguesas, foi na Volta ao Alentejo de 2018 que fez dos melhores resultados – quarto classificado na geral -, mas ainda longe do ciclista que viria a demonstrar ser nas últimas duas temporadas.

Aquela exibição na Alentejana acabou por ser um prenúncio, pois foi lá, em 2021 que venceu e começou a convencer no pelotão nacional.

Foto: João Fonseca Photographer

Antes, em 2020, Mauricio Moreira chegou mesmo a optar por regressar a uma formação amadora espanhola: a Vigo-Rias Baixas. Pelo meio ponderou abandonar a modalidade. A namorada incentivou-o a continuar.

Acabou por ser um ‘reset’ na sua carreira. A partir de 2021 já se sabe. A então denominada Efapel, agora Glassdrive-Q8-Anicolor, ofereceu-lhe um contrato e Moreira recuperou a confiança e a motivação. Evoluiu para um ciclista ganhador e dominador, encontrando uma família na equipa.

Uma aposta ganha do diretor desportivo Rúben Pereira, que afirma sempre ter acreditado estar perante um ciclista que poderia vir a vencer a Volta a Portugal. Na primeira tentativa, aquela queda no contrarrelógio final de Viseu provocou uma enorme frustração. No ano seguinte ganhou o contrarrelógio Porto-Gaia e a geral da Volta.

Deixou Frederico Figueiredo a 1:09 minutos e António Carvalho a 2:35, num pódio muito amarelo em Gaia, naquele lindíssimo cenário que foi ter o rio Douro e a Ponte D. Luís como pano de fundo.

O futuro

Desde 2012 que esta equipa portuguesa não conseguia ganhar uma Volta a Portugal. Fê-lo então com um ciclista marcante: David Blanco, o recordista de vitórias na geral, conquistou naquele ano a sua quinta e última Volta.

Que futuro para Moreira? Tem 27 anos, feitos em julho, e, como tantos outros ciclistas, o sonho é chegar ao World Tour. Com exibições destas fica-se na expectativa para saber o que ainda poderá fazer no ciclismo. Dará o salto, ou tornar-se-á numa referência do pelotão português?

Do alto do seu 1,89 metro, Moreira atingiu o topo em Portugal. É destaque no seu país e tornando-se então apenas no segundo sul-americano a vencer a Volta a Portugal.

É preciso recuar a 1992, quando o brasileiro Cássio Freitas, com as cores da Recer-Boavista, triunfou. O mesmo El País escreveu em título “Uruguaio histórico” para descrever a vitória de Moreira na Volta a Portugal.

Restantes fotografias: Agnelo Quelhas e Fernando Correia/Podium Events

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Elisabete Silva
Quando uma vasta experiência em jornalismo se junta a uma paixão imensa por bicicletas, o resultado é como música para os ouvidos do mais curioso ciclista. E é isso que esta mestre da modalidade acrescenta ao projeto GoRide.

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