O nome de António Morgado já se ia ouvindo pelos bastidores do ciclismo: um jovem talento da zona das Caldas da Rainha, com hábitos de vitórias e de exibições de chamar (e muito) a atenção, apesar da idade. Enquanto outro ciclista da região se afirmava ao mais alto nível — João Almeida —, falava-se como mais um atleta de grande potencial poderia estar a aparecer…

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Morgado tem apenas 17 anos, com o próprio a admitir que tem muito a evoluir. Porém, logo no primeiro ano de juniores recebeu “bilhetes” do selecionador nacional para estar nos Europeus e nos Mundiais do seu escalão. A experiência teve impacto no que Morgado espera ser o início de uma carreira de sucesso.

António Morgado nos Mundiais de Ciclismo. © Federação Portuguesa de Ciclismo

“Sem dúvida que cresci como ciclista. Agora já sei, mais ou menos, o ritmo a que andam e vou preparar-me ainda melhor para competir contra eles”, contou ao GoRide.pt.

António Morgado fala da presença em Trento e Flandres como “uma recompensa” pelo esforço que despendeu durante uma época que lhe rendeu mais de 20 vitórias. “Fiquei bastante feliz”, admitiu sobre a chamada de José Poeira para os Europeus e Mundiais, ainda mais sendo apenas júnior de primeiro ano.

Não mexeu nos seus planos de treino após a convocatória, realçando estar ciente das dificuldades que iria encontrar: “É um ritmo completamente diferente do que há aqui em Portugal”.

Mas foi a colocação que se tornou no maior desafio. “É um pelotão muito agressivo e são muitas quedas… muitos abanicos lá dentro… É complicado”, desabafou. E o que pensava durante a corrida? “Aguentar com ela ao máximo!”.

Salientou que uma constipação limitou-o nos Mundiais, explicando assim o 43º lugar no contrarrelógio, um resultado que não o deixou particularmente satisfeito. Porém, a prova em linha correu bem melhor. Nunca é de mais recordar que foram os primeiros Mundiais de Morgado e o resultado foi um sexto lugar.

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No entanto, o jovem ciclista revela um pouco da sua personalidade ao falar deste momento, pois afinal foi bom, mas quer mais e melhor, até porque reiterou que ao estar constipado não se sentiu a 100%.

“Foi uma grande classificação. Mas senti-me melhor no Campeonato da Europa, apesar de ter ficado pior classificado. Tive mais liberdade de fazer a minha corrida nos Europeus do que no Campeonato do Mundo. Estive mais limitado… Não consegui sequer atacar! Foi uma aprendizagem”, diz.

Tive mais liberdade de fazer a minha corrida nos Europeus do que no Campeonato do Mundo.

Insiste-se e recorda então aqueles frenéticos metros finais, num sprint em que se disputou a medalha de bronze, já que o norueguês Per Strand Hagenes tinha fugido para o título mundial, com o francês Romain Grégoire a ser segundo. O grupo onde estava Morgado e o compatriota Gonçalo Tavares (22º) chegou cinco segundos depois. Morgado “apanhou” a roda certa.

“Estava a sentir-me bem na última volta e aguentei com o grupo e sabia que aquele rapaz era o melhor sprinter. Meti-me na roda dele e agarrei-me a isso. Dei tudo. Era o momento para dar tudo e foi o que fiz”, contou. O rapaz era Madis Mihkels, o estónio que subiu ao último lugar do pódio.

Relembremos esse momento do sprint:

Men Junior Road Race Highlights | 2021 UCI Road World Championships

2021 para recordar

António Morgado continuou em juniores a senda vencedora dos escalões inferiores. Entre as mais de 20 vitórias estão as conquistas das principais provas nacionais, como a Volta a Portugal (venceu todas as camisolas e duas das quatro etapas), a Volta ao Concelho de Loulé e o título nacional de contrarrelógio, além de vários triunfos em Espanha.

© Federação Portuguesa de Ciclismo

Apesar de tanto sucesso, Morgado garantiu que nunca perde o foco e que nunca dá por vencida uma corrida: “Estou cada vez mais focado em ganhar. Estou mais focado e dedicado. Eu ganho, mas não significa que seja o melhor. Há sempre melhores”.

Estou cada vez mais focado em ganhar. Estou mais focado e dedicado.

Para o ciclista, as vitórias fazem parte do percurso em algo mais importante para ele, isto é, continuar a evoluir como atleta. Em 2022 pretende continuar na Bairrada, clube que tem lançado jovens de sucesso, com João Almeida a ser agora um dos principais rostos de sucesso de um ciclista que ali passou em júnior.

Sem surpresa, Morgado não esconde a admiração pelo compatriota, um dos que mais idolatra. Seguem-se Primoz Roglic e Wout van Aert e, ao descrever-se como ciclista, percebe-se as escolhas de Morgado.  “Acho que sou um pouco completo. Mas espero no futuro perder uns quilos e tornar-me melhor nas subidas e talvez perder um pouco no sprint”, explicou.

Ou seja, seguir as pisadas dos três ciclistas que referiu que mais gosta de ver correr. Contudo, acrescentou: “Mas neste escalão não compensa perder muito peso porque a maior parte das corridas são discutidas ao sprint e se não tivermos um bom sprint, não ganhamos”.

Referiu que a escolha de competir pela equipa da Bairrada está nas condições que lhe são oferecidas, principalmente a oportunidade de competir em Espanha. “É um nível totalmente diferente de Portugal. Vão lá equipas francesas, às vezes inglesas, belgas… Corremos com pessoal bom e faz-nos evoluir”, disse.

As ambições

Em Morgado cresce a ambição de chegar alto. Com total apoio da família, está preparado para os sacrifícios e, aos 17 anos, estes incluem conciliar treinos, corridas e estudo. Está no 11º ano de Humanidades e pretende acabar o Secundário. Isto significa que os treinos são da parte da tarde, nem sempre nas condições mais convidativas.

© Federação Portuguesa de Ciclismo

“Acordo de manhã para ir para a escola e treino à tarde depois das aulas. Agora ainda é dia, mas em Dezembro e Janeiro é sempre à noite”, referiu, realçando ainda que não tardará a chegar também o frio e a chuva. No entanto, nada que o demova do seu objetivo.

O plano está definido. Sabe o que tem de fazer para tentar chegar ao topo e, mais uma vez, o exemplo de João Almeida surge na conversa. Morgado quer dar o salto para o estrangeiro o mais cedo possível.

Neste caso pensando em quando chegar ao escalão de sub-23, à imagem de Almeida, agora ao serviço da Deceuninck-QuickStep, uma das melhores equipas do mundo (prepara-se para mudar para a UAE Team Emirates), mas com uma importante passagem na Hagens Berman Axeon — exímia na formação de jovens ciclistas — e, antes, na mais desconhecida Unieuro Trevigiani-Hemus 1896.

Morgado é taxativo:

“Quero saltar logo para fora. Não quero ficar em Portugal. Espero conseguir sair em sub-23.”

Para a época de 2022 leva a importante experiência dos Europeus — nos quais fez um 18º lugar no contrarrelógio e um 20º na corrida em linha — e nos Mundiais.

Duas realidades que lhe aguçaram a vontade de chegar ao topo do ciclismo, o World Tour. Nem é preciso perguntar que é isso que quer, mas havia a curiosidade de saber qual a corrida que mais quer fazer acima de todas. Não hesitou um segundo na resposta: “Volta a França! É o maior palco do ciclismo”.

Instagram António Morgado

Facebook Bairrada Cycling Team

Todas as fotos: © Federação Portuguesa de Ciclismo

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Elisabete Silva
Quando uma vasta experiência em jornalismo se junta a uma paixão imensa por bicicletas, o resultado é como música para os ouvidos do mais curioso ciclista. E é isso que esta mestre da modalidade acrescenta ao projeto GoRide.

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