“O sonho é ser o mais feliz possível no ciclismo e poder fazer disto a minha carreira”. Quem o diz é Francisco Pereira, um dos ciclistas que este ano deu o salto para uma equipa profissional e que já se vai distinguindo no pelotão.

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Nem sempre é preciso ter logo grandes resultados para o fazer. Felicidade é uma das palavras-chave. Este corredor destaca-se por ter sempre um sorriso no rosto, estar sempre pronto para uma palavra amiga, mostrando o quanto está feliz por estar a viver o seu sonho.

Aos 21 anos, Chico – como é tratado – recebeu o voto de confiança de Joaquim Andrade, diretor desportivo que lhe abriu as portas da ABTF Betão-Feirense com a qual conquistou recentemente uma vitória. E se já sorria antes, era impossível tirar-lhe a boa disposição depois de vencer uma etapa na Volta a Portugal do Futuro e vestir a camisola amarela.

“Foi mesmo um momento especial. Há muito tempo que procurava essa vitória e ter conseguido na corrida mais importante do nosso escalão foi incrível. E esse sorriso foi também por causa disso”, contou ao GoRide.pt.

Mas salientou de imediato: “O triunfo foi muito especial. Mas há muitos dias que correm mal e nesses aprendemos ainda mais do que naquele que ganhamos. Esses ensinam muito”.

Naquela tarde, em Águeda, o seu único companheiro de equipa na corrida, Miguel Carvalho, estava ao seu lado nos festejos, mas muitos dos ciclistas das outras equipas nacionais pararam para cumprimentar Francisco Pereira.

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Apenas mais uma mostra de como é acarinhado por todos. “Não procuro isso. Não há motivos para nos chatear-nos. Estamos todos a lutar pelo mesmo. Às vezes há uns pequenos conflitos que podem surgir, mas são coisas normais. Temos de saber lidar uns com os outros”, disse.

E acrescentou: “O ciclismo é um desporto diferente dos outros. Nós, ciclistas de diferentes equipas, treinamos juntos e criamos laços de amizade incríveis. Na corrida tentamos desligar um pouco esse chip. No entanto, se vemos um amigo aflito tentamos ajudar e acho que é essa a grande diferença. Treinar com colegas de outras equipas é o que torna o ciclismo um mundo diferente, onde todos podemos dar-nos bem”.

Francisco Pereira valoriza muito a amizade, a família e todo o apoio que recebe. E apoio é a outra palavra-chave na vida deste ciclista. Quando venceu aquela segunda etapa, o discurso de agradecimento foi longo, pois não queria deixar ninguém de fora: “as pessoas estão sempre do meu lado. As que me deram os parabéns por aquela vitória, já o faziam antes. É muito mais importante essas pessoas estarem lá quando as coisas correm mal, do que quando correm bem. Foi a melhor maneira que encontrei para lhes agradecer por estarem lá quando as coisas não correm bem”.

Não estamos aqui para andar o dia todo na roda. Acho que é mais bonito tentar atacar, tentar fazer diferenças antes, mexer na corrida. O meu objetivo é dar um pouco de espectáculo e divertir-me.

O ciclista não hesita em considerar esse apoio “indispensável” na sua carreira. “Sentir que todos me estão a apoiar é a minha maior força. Tenho a certeza que sem esse apoio não estaria a conseguir o que estou a conseguir”.

Estilo atacante

Na primeira época na ABTF Betão-Feirense as coisas estão a correr bem. Os objetivos na Volta a Portugal do Futuro até foram superados, pois passavam principalmente por vestir a camisola amarela. Francisco juntou o triunfo na segunda etapa com uma das melhores exibições de toda a prova, num dia em que deu espetáculo ao perseguir as bonificações e ao dar tudo o que tinha para concretizar o plano que não tinha conseguido no dia anterior.

“A minha maneira de correr sempre foi assim, o mais atacante possível. Estando bem, procuro sempre fazer diferenças e lutar por classificações secundárias, mas que dão visibilidade aos nossos patrocinadores, à nossa equipa. Acho isso muito importante. E também para o espectáculo. Não estamos aqui para andar o dia todo na roda. Acho que é mais bonito tentar atacar, tentar fazer diferenças antes, mexer na corrida. O meu objetivo é dar um pouco de espectáculo e divertir-me”, salienta.

Recordou-se então o sprint com o espanhol Fernando Rodríguez (Bicicletas Rodríguez-Extremadura), com os dois ciclistas terem ficado isolados na discussão da etapa: “Não foi fácil. Estava com algum receio. Ele estava numa forma espectacular. No final tive de tomar a iniciativa, tive de puxar nos últimos quilómetros. Ele fez o jogo dele e fez bem. Se fosse ao contrário faria o mesmo. Ele não puxou. Antes do sprint até lhe disse obrigado por ter ajudado até ali e agora que ganhasse o melhor e ele disse o mesmo”.

No final, Rodríguez foi dos primeiros a dar os parabéns a Francisco Pereira naquela que o ciclista do Porto espera ser a primeira vitória de muitas mais da equipa. “Se não for comigo, que seja com os outros colegas. Estamos cada dia a ficar melhores”, assegurou.

A importância dos veteranos

Na ABTF Betão-Feirense, só Miguel Carvalho é mais novo que Francisco Pereira (um ano), sendo a dupla que esteve na Volta a Portugal do Futuro. Chico não esqueceu o companheiro que tão pacientemente o esperava enquanto falava com o GoRide.pt.

Até brincou, aproveitando também para elogiar Miguel, dizendo que já tinha sido paciente ao esperar por ele na terceira etapa da corrida e por nunca o deixar sozinho quando esteve em dificuldades, tendo perdido a amarela, como já esperava. O objetivo era mesmo vesti-la pelo menos um dia.

Nesta chegada a uma equipa profissional, o ciclista destaca a importância que tem contar com alguns dos corredores mais experientes do pelotão nacional. Micael Isidoro (39 anos), Márcio Barbosa (36) e André Carvalho (37) contam com muitos anos de ciclismo, este último tendo estado inclusivamente no World Tour.

Francisco valoriza estas presenças na equipa, considerando essencial poder contar com os seus conselhos, sem esquecer o diretor desportivo Joaquim Andrade.

“Este ano, a experiência deles, para nós, deve ser das coisas mais importantes que temos. Dos nossos colegas e do chefe Andrade. Tudo aquilo que estamos a aprender agora, eles já aprenderam há muito tempo e transmitem-nos isso. Sabem o que precisamos, como nós temos de correr, como procurar andar mais na frente… Temos muita sorte em ter esses colegas mais experientes na equipa”, afirmou.

Fazemos muitas asneiras! Às vezes pensamos que estamos a ajudar e estamos a fazer pior! Têm muita paciência connosco. Dão muitas dicas e isso é muito importante.

Admitiu que não é fácil entrar numa equipa profissional, apesar de na Sicasal-Miticar-Torres Vedras e na então JV Perfis-Gondomar Cultural já ter competido com este pelotão, como é habitual em Portugal, país com poucas corridas exclusivas para o escalão de sub-23.

“Não é fácil. É uma diferença grande. Estamos sempre a aprender. Felizmente temos a sorte dos nossos colegas mais experientes explicarem-nos, mesmo durante as corridas. Fazemos muitas asneiras! Às vezes pensamos que estamos a ajudar e estamos a fazer pior! Têm muita paciência connosco. Dão muitas dicas e isso é muito importante. O chefe [Joaquim Andrade] tem-nos dado muitas oportunidades e isso para nós, ciclistas mais jovens, é muito importante”, frisou.

A responsabilidade aumentou e o jovem ciclista disse que é preciso saber lidar com isso, realçando como está numa fase de aprendizagem: “O nosso chefe nisso é impecável. Ajuda-nos sempre, tenta dar-nos liberdade, dá-nos muitas dicas. Conta-nos também muitas histórias e tentamos aprender um pouco com as histórias que conta e isso é fundamental para o nosso crescimento como ciclistas”.

Segundo o corredor, Joaquim Andrade pede-lhe que “continue a dar o seu melhor, que seja responsável e que faça o que mandou fazer”. Francisco Pereira quer cumprir tudo à letra, pois em jogo está continuar a viver o seu sonho.

“Quero continuar com a carreira de ciclista profissional e vou continuar a dar sempre o meu melhor. O que vier será sempre bem-vindo, desde que continue a ter as pessoas a apoiar-me ao meu lado. Isso para mim é o mais importante”, reiterou.

Uma Volta a França mudou tudo

Até aos 14 anos, Francisco Pereira jogou andebol. No entanto, contou como umas lesões no cotovelo faziam com que estivesse menos em campo. Um dia, viu a Volta a França: “Nunca mais me esqueço que na primeira vez que vi, apaixonei-me. Foi amor à primeira vista.” Ciclistas como Mark Cavendish e Fabian Cancellara passaram a ser referências no seu sonho de chegar a profissional.

Se no início a família “ficou um bocado sem saber o que dizer”, um primo, Carlos Veloso, estava ligado ao ciclismo e acabou por o ajudar a entrar na modalidade.

Quando se pede para se descrever como atleta, eis a resposta: “Como ciclista ainda não sou nada! Como se viu [na etapa com mais montanha da Volta a Portugal do Futuro] não sou muito bom a subir, tenho muitas dificuldades. Mas procuro desfrutar ao máximo. Sou um ciclista para trabalhar para a equipa. Dou tudo o que tenho de mim para ajudar os meus colegas da melhor maneira possível”.

E sempre, mas sempre, com um sorriso no rosto. “Sou assim. Tenho esta maneira de ser, sempre o mais feliz possível. A vida corre-nos bem, por isso não há motivos para estarmos chateados. Estamos a fazer o que gostamos, temos muitas pessoas a apoiar-nos, só há motivos para se estar alegre. Estou a fazer o que gosto”.

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Todas as fotos: João Calado/Podium Events

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Elisabete Silva
Quando uma vasta experiência em jornalismo se junta a uma paixão imensa por bicicletas, o resultado é como música para os ouvidos do mais curioso ciclista. E é isso que esta mestre da modalidade acrescenta ao projeto GoRide.

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