Não duvides: quando se fala de vertentes do BTT como a maratona ou o cross-country, a grande maioria das provas é ganha (ou perdida) monte acima. Mas será que é mesmo possível aprender a gostar de subidas? Especialmente para quem não é um trepador nato. Há segredos: foco, trabalho, treino, disponibilidade física e mental.

Com o evoluir da tecnologia, as subidas como que “aligeiraram”: equipamento mais leve, mais ágil e com maior rigidez. No entanto, nem todos partilham desta “paixão” por uma boa subida. Para os que querem tirar o máximo partido de uma escalada na bicicleta, existem diversas maneiras de “encarar” (e melhorar…) uma subida. Aqui ficam quatro ideias que podem efetivamente ajudar a aprender a gostar de subidas.

Abordagens para aprender a gostar de subidas!

Algo importante antes de aprofundarmos: a forma como uma subida é encarada varia de biker para biker, seja na montanha, seja na estrada.  Aprender a identificar o que resulta melhor para cada um terá o condão de ajudar qualquer um de nós a entender o que é mais importante e funciona de forma mais positiva. Comecemos pela parte racional…

1. Os dados como motivação

Utilizas um “conta-kms”, certo? Ou um GPS ou ciclocomputador. Sensor de frequência cardíaca? Medes cadência, força da pedalada, etc?

E depois perdes alguns minutos a analisar e interpretar os dados, presumimos. A recolha e correta análise destes dados pode realmente melhorar a performance numa subida. Secção mais longa, parte mais técnica e penosa, rampa longa e constante, subida de terra batida… Há toda uma panóplia de fatores a recolher, analisar, interpretar.

O melhor é que depois podemos usar esta informação para adaptar, melhorar, otimizar. E repetimos tudo, para que sirva de teste na próxima subida. Com o aporte desta valiosa informação, recolhida em treinos cuidadosamente monitorizados: onde foste mais rápido, onde despendeste mais energia, onde o esforço foi maior, em que intervalos de temperatura a eficiência foi maior.

Tudo isto pode dar-te um feedback valioso para tornares o processo mais eficiente. E isto serve para aprender a gostar de subidas, efetivamente. Ao analisares todos os dados, vais-te tornar mais competitivo em subidas enquanto avalias todos os elementos táticos. Estudar e avaliar uma subida que “sobes” com frequência oferece-te um desafio consistente e um meio de crescimento atlético e de técnica pessoal.

E isto leva-nos à abordagem seguinte, relacionada com o perfil competitivo de cada um de nós…

2. Perder? Nem a feijões!

Mais do que formas de competir com colegas de pedaladas, as subidas são um ótimo “lugar” para ultrapassares os teus próprios limites e competires sim com os nossos próprios tempos. Para melhorares e progredires. Para os que que são inerentemente competitivos mas têm um certo receio de arriscar monte abaixo, é a subir que conta. 

Subir com um espírito competitivo é algo que está ligado à condição geral do ciclista na bicicleta, de diversas formas. Quanto mais aptos estivermos, mais rápido subimos – e essa aptidão passa automaticamente para todos os outros aspetos da nossa diversão competitiva nos trilhos.

Subidas alimentam atletas competitivos. Todo o dia. Embora algumas bicicletas mais recentes ajudem bastante, elas não fazem o trabalho sozinhas. Para quem realmente vive para vencer, as subidas oferecem um estágio perfeito na procura da linha de subida mais rápido e limpa.

O que quer isto dizer, então? Que deves aproveitar todo o teu perfil competitivo para aprender a gostar de subidas. Especialmente se não te dás bem a descer, aposta nas partes a subir para levares de vencida quem está a pedalar contigo. Cria um ambiente competitivo saudável e “goza” com quem fica para trás à medida que o trilho se desdobra monte acima. Isto vai “puxar” por ti, pelos teus colegas e/ou adversários, vai tornar necessário que haja mais treino de parte a parte. Ao veres resultados, tudo ficará ainda mais fácil e prazeroso.

3. Subir para queimar calorias?

Esta é outra forma de aprender a gostar de subidas: metermos na cabeça que são elas que nos permitem gastar mais calorias a andar de bike. E isto ocorre desta forma, efetivamente. Quantas vezes terminaste um treino “rolante” em que mal transpiraste e fizeste subir as pulsações? Nesses treinos, não está no intervalo de batimento cardíaco que te permite perder peso.

Se passares metade do tempo a trepar, aí sim o treino está a render. Um sensor de batimento cardíaco é essencial a este exercício, como sabes. Mais: naquelas ocasiões em que o tempo para pedalar é limitado, subir o monte apresenta-se como uma maneira rápida e simples de queimar calorias.

A aposta em subidas e nas repetições dessas subidas, em esforço, queimará mais calorias que qualquer trilho plano ou descida, garantidamente. Treinos curtos de alta intensidade em subida durante a semana certamente resultam melhor que um treino longo de fim de semana, pouco exigente. Se vives num local onde a subida mais longa dura apenas dois minutos, experimenta repeti-la dez vezes.

Forçar os cranks numa subida não queima só calorias e constrói músculos. Também põe a descoberto a adaptação e resistência ao esforço do corpo. Em trilhos mais íngremes e longos, poderemos ter uma ideia de até onde podemos ir e onde se encontra o nosso limite de tolerância ao esforço.

A melhor parte é que os nossos limites não são estáticos. Eles mudam com o trabalho. Aprender por quanto tempo conseguimos subir antes de atingirmos a exaustão ajuda muito na programação de aventuras épicas, voltas mais longas. E talvez nos ajude a voltar para casa naqueles dias em que a volta foi um pouco mais extensa e dura do que o esperado.

Quanto mais subires, mais bem treinado ficas para subir melhor. E quanto melhor sobres, mais gostas de estar nessa forma física. É um círculo vicioso, pela positiva.

4. Subir para apurar a técnica

Além de força e foco mental, uma boa subida, especialmente no BTT, requer técnica. A nível cardiovascular, é mais fácil testar os nossos limites em subidas. Assim como melhorar a nossa resistência ao esforço. Atletas de downhill e enduro profissional incluem treino de subida nos seus treinos, de modo a aferir e a melhorar a capacidade de resposta do corpo ao esforço extremo.

Mas, no que diz respeito ao treino de técnica, preferir percursos com muitas subidas é ainda mais importante. Desde que metade dessas partes sejam essencialmente técnicas, claro.

Confrontados com o jogo estratégico de pedras e obstáculos à nossa frente, é fundamental antecipar a escolha da trajetória ideal de modo a não perdermos tração nem desperdiçarmos energia. Subir trilhos técnicos mais exigentes, raízes e rochas, normalmente oferece um amplo sustento para uma abordagem racional do treino. 

Sessões de séries, repetidas num trilho técnico a subir, ajudam a melhorar a eficiência, a aumentar a confiança e o conforto rítmico. Ou simplesmente a encontrar o caminho mais rápido até ao topo do monte. Existe sempre mais um caminho, mais uma trajetória: ao treinares nestas condições, estás a melhorar em duas “frentes”: nas subidas e na técnica. E isso traz resultados e gosto pela modalidade.

Ou não ficas a sentir-te bem quando finalmente consegues subir aquela parte mais técnica sem desmontar?

Treinar, trabalhar, treinar…

Se motivação e subida são dois conceitos dificilmente conciliáveis, fica a saber que podes muito bem mudar essa realidade.

Quanto mais subires, quanto mais forçares a tal, melhores serão as sensações e, eventualmente, a vontade de subir novamente irá, provavelmente, aumentar. À medida que o corpo se adapta a isto, consegues mais músculos, uma redução da massa gorda e capacidade para pedalares com mais força em subidas e com menos esforço em segmentos técnicos.

O grande “problema” é que, para recolheres a recompensa, é necessário muito trabalho… Está à espera de quê afinal?