Vladimir Kovacik viajou até Montreal com a perspetiva de passar o Campeonato do Mundo a cuidar dos atletas da seleção da Eslováquia. No entanto, o massagista da equipa nacional acabou por colocar um dorsal e alinhar na corrida de fundo de elite masculina ao lado das maiores figuras do ciclismo profissional, tornando-se protagonista de uma das histórias mais insólitas da prova.

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Aos 28 anos, Vladimir Kovacik estava afastado da competição séria há nove anos. O percurso competitivo passou pelo nível continental em 2016, ano em que realizou a última prova oficial, mantendo atualmente apenas treinos de cariz amador. Contudo, quando a Eslováquia ficou sem ciclistas disponíveis para os Mundiais, o massagista tornou-se a única alternativa viável para a federação do seu país.

A seleção eslovaca viu-se a braços com um cenário de emergência: Matthias Schwarzbacher ficou de fora por lesão, Martin Svrcek esteve indisponível devido a problemas de saúde e o campeão nacional Lukas Kubis não foi libertado pela sua equipa em virtude do calendário de competições. Com o prazo de inscrições já encerrado, era impossível convocar outro corredor. Não apresentar qualquer elemento na linha de partida acarretava o risco de despromoção dos campeonatos nacionais na época seguinte — com a consequente redução drástica de pontos UCI — e ameaçava a qualificação olímpica. Presente em Montreal e detentor da respetiva licença, Kovacik aceitou o desafio de ir para a estrada.

«Quando me disseram que ia correr, limitei-me a sorrir», relatou à estação TV JOJ. “Mas à medida que o dia se aproximava, ficava cada vez mais stressado.” A chamada inesperada transformou-o rapidamente no centro das atenções: “Nem conseguia abrir o telemóvel ou as redes sociais, porque assim que abria o Instagram, a minha fotografia estava em todo o lado. Não estou habituado a isso.”

Questionado sobre a forma como se preparou para uma prova de Campeonato do Mundo após quase uma década de paragem, a resposta manteve a modéstia: “Apenas treino a nível amador. Rapei as pernas, mas foi praticamente isso.”

O ambiente antes do tiro de partida adensou o nervosismo. Cercado por câmaras, jornalistas e milhares de adeptos, Kováčik sentiu o peso do momento: “Quando subi ao pódio, estava tão stressado que nem conseguia encontrar o meu número na folha de assinaturas. Mas depois de todas as entrevistas e após a partida, melhorou.”

O selecionador nacional da Eslováquia, Jakub Vanco, transmitiu-lhe apenas indicações para desfrutar da ocasião, mas Kovacik traçou a sua própria meta: “Queria testar-me e ver quantos quilómetros conseguia aguentar.”

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Durante os primeiros 15 a 20 quilómetros, resguardou-se na cauda do grupo para poupar energias e evitar percalços. Com o avançar da prova, ganhou confiança. “Tentei ficar na cauda, mas acabei por conseguir subir um pouco e chegar aos 30% da frente”, explicou.

Se bastava cortar a linha de partida para assegurar os compromissos regulamentares da federação eslovaca, Kovacik foi muito além das expectativas e aguentou-se no pelotão principal durante mais de 100 quilómetros, a caminho do circuito de Montréal.

“Fiquei feliz por conseguir manter-me no pelotão a uma média de 47 quilómetros por hora até ao circuito local. Fiquei feliz por ter passado a ponte”, sublinhou. O feito mereceu o reconhecimento dos colegas de estrada: “Alguns dos maiores nomes do ciclismo profissional vieram ter comigo durante a corrida, apertaram-me a mão e disseram palavras simpáticas. Foi incrível.”

A prestação chegou ao fim na primeira passagem pela subida de Camillien-Houde, ponto crucial do traçado canadiano. Vladimir Kovacik perdeu o contacto com o pelotão e retirou-se após cruzar pela primeira vez a linha de meta.

Apesar do desfecho, a missão foi cumprida com distinção. O descanso, porém, terá de esperar: “Cheguei a casa apenas hoje, mas amanhã vou para o Campeonato da Europa”, adiantou Kovacik. Mas agora sem dorsal: “Desta vez, verdadeiramente apenas como massagista.”