Já lá vão quase quatro anos desde que Tiago Machado terminou a carreira de ciclista. O próprio deixa escapar um suspiro ao confirmar o tempo que passou. Mas recusa deixar a bicicleta de lado. Continua a andar, além de viver intensamente o seu papel de destaque na formação da Efapel e, quem sabe, a preparar uma futura referência do ciclismo português.
Para Tiago Machado, agora com 40 anos, é importante dar o exemplo. “Depois começas a engordar, não pode ser, não é?”, brincou ao salientar que pedalar continuar a ser o seu maior vício, ainda que lhe agrade bastante o poder fazer como quer: “Não há mais séries, não há nada disso. Quando as pernas não doem, vou rápido, quando começam a doer, boto mais o pé, porque já não aguento tanto”.
O ciclismo é a sua paixão e tenta passar a sua experiência aos sub-17 da Efapel, focado numa missão que vê como essencial: garantir que os agora jovens ciclistas se divirtam. “Digo-lhes que têm tempo para ganhar corridas. O mais importante é desfrutarem da bicicleta”, afirmou.
Numa altura em que o profissionalismo tende a bater à porta cada vez mais cedo, muitas vezes logo aos 18 anos, o antigo ciclista quer ver os seus atletas evoluírem sem saltar etapas e, principalmente, felizes com o que fazem.
“Se desde o primeiro dia sentirem como uma obrigação, estão no sítio errado. Foi o meu trabalho durante 18 anos, mas nunca foi uma obrigação. É importante eles serem felizes nestas idades”, realçou.
O ciclismo nacional vive mais um momento marcante, com Afonso Eulálio (Bahrain-Victorious) a ter envergado camisola rosa durante vários dias na Volta a Itália e com ídolos como João Almeida e António Morgado (UAE Team Emirates-XRG) em alta, sem esquecer o mais veterano e um senhor do pelotão World Tour, Nélson Oliveira (Movistar).
Coloca-se então a questão do estado da formação em Portugal e se há potencial para em alguns anos aparecerem novos nomes ao mais alto nível.
Garantir as melhores condições possíveis aos jovens ciclistas
As dificuldades nos escalões jovens são há muito conhecidas, mas Tiago Machado está otimista. A sua opinião centra-se na realidade que melhor conhece, o projeto da Efapel, de José Azevedo, que arrancou não só como equipa Continental, mas igualmente com o foco em formar futuros talentos.
“Falo daqueles com quem trabalho. Se nada de anormal acontecer, a breve prazo, acredito que vamos conseguir ter um ou outro ciclista que podem vir a ser uma referência”, assegurou.
Porém, prefere não dizer nomes e explicou porquê: “Lembro-me como pensava na idade deles. Lembro-me que é muito fácil, quando somos elogiados, ficarmos de peito feito e depois baixamos um pouco a guarda. Por isso, é que prefiro mantê-los no anonimato, ir trabalhando com eles e ajudá-los no que eu posso, dando-lhes conselhos”.
Acrescenta que não faz comparações com um João Almeida ou outro corredor, afinal, com um grupo tão jovem, ainda há um percurso a trilhar para melhor conhecer o potencial de cada um.
Ciente que nem todos serão profissionais e sabendo que o staff nos escalões de formação é irremediavelmente curto, reitera que acredita que há talento na Efapel.
Com o orçamento que tem e com a ajuda dos familiares dos ciclistas e até do seu próprio filho mais velho, tenta proporcionar as melhores condições para a evolução dos atletas.
Vida de diretor desportivo/treinador
Estar no carro nem sempre é fácil. Tiago Machado vive a sua experiência como diretor dos ciclistas mais novos com intensidade idêntica com que partia para uma corrida, fosse um Tour, uma Volta a Flandres ou uma prova portuguesa.
“Sou hiperativo e, se calhar, por isso é que às vezes fazia aquelas aventuras”, recordou, sempre bem-disposto, referindo-se aos ataques de longe por que era conhecido no pelotão tanto nacional, como no World Tour.
O apoio nas provas é parte essencial das condições que quer garantir que os seus ciclistas tenham. Recentemente foi a vez de os ajudar num contrarrelógio, na 3ª Taça de Portugal do escalão, em Cabeceiras de Basto.
No carro, explicou, consegue ver se o ciclista “está em crise”, se precisa de alguma ajuda, ou simplesmente umas palavras que o mantenham focado e motivado.
E tem resultado nesta competição, pois a equipa tem marcado presença no pódio, algo que deixa todos satisfeitos.
Com a experiência que vai acumulando, será que Tiago Machado ambiciona outros voos como diretor desportivo?
“Estou bem aqui, mas chega um momento em que se quer sempre um pouco mais. Quando fui lá para fora correr, eu queria um pouco mais. Mas não passo em cima de ninguém, nunca passei”.



