O vencedor do Tour de França de 1997, Jan Ullrich, abordou a cultura de doping da sua geração, afirmando que optou por não expor outros ciclistas envolvidos por amor à modalidade. O alemão admitiu publicamente pela primeira vez o recurso a doping sanguíneo em 2013.

Na altura, Ullrich confessou ter realizado procedimentos com o médico espanhol Eufemiano Fuentes. Contudo, foi uma década mais tarde, por ocasião do lançamento do documentário «Jan Ullrich – Der Gejagte» (O Caçado), que o ex-ciclista falou de forma mais aberta sobre o seu passado, detalhando a cultura de doping generalizada na sua era.

Recentemente, em declarações ao programa de televisão alemão «Inas Nacht», Ullrich explicou a sua decisão de não denunciar outros nomes do pelotão. “Podia ter denunciado toda a gente que estava no mundo do ciclismo na altura. Mas não o fiz porque amava demasiado o meu desporto para o fazer”, revelou.

O alemão descreveu também a mentalidade dos ciclistas daquela época, onde a prevalência da prática influenciava o pensamento coletivo. “Toda a gente o fazia, não apenas no ciclismo, por isso estávamos apenas a fazer o que os outros faziam. Convencemo-nos de que não nos estávamos a dopar, porque se toda a gente o faz, então o ciclismo continua a ser uma questão de talento”, explicou.

Esta mentalidade era comum durante um dos períodos mais conturbados da história do ciclismo profissional, marcado por sucessivas investigações e sanções retroativas que envolveram algumas das maiores figuras do desporto.

A carreira de Ullrich ao mais alto nível terminou abruptamente devido à investigação da Operação Puerto, que levou a que tivesse sido afastado do Tour de França de 2006 na véspera do arranque da prova. O ciclista nunca mais competiu profissionalmente, anunciando a retirada oficial em 2007. Em 2012, o Tribunal Arbitral do Desporto considerou-o culpado de violação das regras antidoping, anulando os resultados que o corredor alcançou a partir de maio de 2005.

As consequências, no entanto, foram muito para além da carreira. Ullrich falou abertamente sobre os anos difíceis que se seguiram, incluindo lutas contra o álcool e as drogas. Olhando para trás, o ex-ciclista resumiu o custo pessoal de forma sucinta: “O doping custou-me dez anos”.

Apesar de tudo, Ullrich acredita que a exposição do problema permitiu uma limpeza na modalidade. “Foi uma época podre. Mas, pelo menos, fomos expostos para que pudéssemos ter um desporto limpo. Hoje, o desempenho é melhor graças a grandes avanços científicos. Três semanas de treino em altitude têm o mesmo efeito que tomar EPO naquela altura. Não o juraria, mas gosto de acreditar que hoje em dia está tudo limpo”, concluiu.