A nutrição tornou-se um dos temas mais populares, e talvez dos mais “distorcidos” no ciclismo amador, sobretudo nas redes sociais. É neste contexto que surge o alerta lançado recentemente por Xavier Bigard, responsável médico da Union Cycliste Internationale (UCI).

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Segundo Bigard, um número crescente de ciclistas amadores está a basear a sua alimentação em versões simplificadas, e muitas vezes erradas, das rotinas nutricionais de atletas profissionais divulgadas no TikTok, Instagram ou YouTube.

Do ponto de vista da UCI, a desinformação prolifera por duas razões principais. Por um lado, conteúdos chocantes ou simplistas sobre alimentação têm grande alcance nas redes sociais. Por outro, a formação em nutrição desportiva continua a ser escassa em muitos países.

Em França, por exemplo, Bigard aponta uma lacuna preocupante na formação de profissionais realmente competentes nesta área. Como resultado, mensagens erradas circulam sem contraditório técnico.

Consequentemente, muitos amadores seguem planos alimentares que não foram adaptados ao seu perfil individual.

Isso pode gerar problemas concretos, como, desconforto gastrointestinal durante treinos longos ou provas, défices ou excessos energéticos que prejudicam a recuperação e o sistema imunitário, escolhas alimentares baseadas em modas, não em evidência científica.

Aliás, estudos fora do ciclismo mostram o mesmo padrão: quando a nutrição é apresentada sem contexto, o modismo tende a substituir a ciência.

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Os limites do que se vê online

Um dos riscos mais claros, segundo Bigard, está na promoção de ingestões exageradas de nutrientes. Os hidratos de carbono são um exemplo frequente.

Embora a ingestão elevada seja comum no ciclismo profissional, a absorção máxima de carboidratos durante exercício intenso tem limites fisiológicos bem conhecidos. No entanto, esses limites são frequentemente ignorados nos conteúdos.

Importa sublinhar: a UCI não condena a partilha de experiências pessoais. Muitos profissionais mostram, de facto, o que fazem. O erro surge quando essas práticas são replicadas sem adaptação individual.

Isto afeta os ciclistas?

Na prática, os ciclistas amadores tendem a seguir atletas de elite sem compreenderem as diferenças fisiológicas: adoptar dietas “one size fits all”, consumir suplementos por tendência, não por necessidade.

Este comportamento resulta da combinação entre excesso de conteúdos apelativos e fraca literacia nutricional. Profissionais de saúde identificam este padrão como um risco crescente para quem consome informação online sem filtros críticos.

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Então, o que deve fazer um ciclista amador?

Se o aviso da UCI for levado a sério, a conclusão é simples: nutrição desportiva não é copy-paste.

Isto implica que, copiar dietas de profissionais é arriscado, porque as necessidades são radicalmente diferentes. Procurar nutricionistas credenciados faz diferença real na adaptação ao treino e desconfiar de soluções simples para problemas complexos é uma competência essencial.

O alerta da UCI não é um ataque às redes sociais. É um aviso claro.
A informação nutricional circula livremente, mas nem toda é cientificamente válida ou aplicável ao ciclismo amador.


Autor do artigo:
André Canuto
Crédito das imagens:
Conta X UCI
https://x.com/UCI_cycling/header_photo
Unsplash

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