A Aerobag, uma startup belga, desenvolveu um sistema que se usa nas costas e que se enche automaticamente em caso de queda, com o objetivo de proteger zonas críticas como a cervical e a coluna.

PUB
Cube Litening Air

Além disso, segundo os seus responsáveis, já existem equipas do WorldTour a testar a tecnologia. Assim, o tema entra, pela primeira vez, no campo prático do pelotão e deixa de estar apenas no domínio dos protótipos.

Um problema com uma solução específica

É inegável que as quedas fazem parte do ciclismo de estrada e, por isso, qualquer proposta que vise reduzir lesões graves merece atenção. No entanto, a questão central não é a originalidade da tecnologia, mas sim a sua adequação ao tipo de acidentes que realmente definem o risco no ciclismo profissional.

De forma geral, sistemas de airbag pessoal partem de um pressuposto técnico: é possível detetar uma perda de controlo antes do impacto e, consequentemente, antecipar o movimento do corpo.

Esse modelo funciona melhor em cenários relativamente isolados, onde o utilizador é projetado sozinho e a sequência do impacto é mais previsível. Porém, no pelotão raramente oferece esse enquadramento.

A natureza caótica das quedas em pelotão

Na prática, as quedas em corrida são frequentemente laterais, coletivas e desordenadas. Por um lado, há toques a alta velocidade e mudanças bruscas de trajetória, por outro, existe o efeito dominó típico de um grupo compacto.

PUB

Como resultado, um ciclista não cai apenas ao solo, pode embater em vários colegas, ser atingido por trás e sofrer impactos sucessivos em diferentes partes do corpo.

É precisamente neste contexto que surgem as lesões mais comuns no ciclismo de competição: fraturas da clavícula, danos severos no ombro, lesões na anca e traumatismos cranianos. Portanto, embora proteger a coluna e o pescoço seja relevante, isso não cobre necessariamente o núcleo estatístico das lesões graves observadas no pelotão.

Além disso, a comparação frequente com o MotoGP tem limitações claras. Nas motos, o atleta separa-se da máquina e desliza longas distâncias, muitas vezes sem contacto direto com outros corpos.

Em contraste, no ciclismo, a massa humana concentrada e a proximidade constante entre atletas criam uma dinâmica de impacto distinta. Assim, a transferência direta de soluções entre modalidades deve ser vista com cautela.

O desafio da deteção automática

Outro ponto crítico é a forma como o sistema decide quando disparar. Um airbag vestível depende de algoritmos capazes de distinguir entre movimentos agressivos normais e uma queda iminente.

PUB
Novidades Trek 2026

No entanto, sprintar fora do selim, saltar irregularidades ou descer pavé são ações normais em corrida, embora gerem dados semelhantes aos de uma perda de controlo.

Deste modo, surge um equilíbrio difícil. Se o sistema for demasiado conservador, pode ativar tarde demais. Em contrapartida, se for sensível, aumenta o risco de disparos indevidos. Num sprint final, por exemplo, um airbag a abrir por engano não é um simples erro técnico; pelo contrário, pode ser o fator que desencadeia uma queda em pelotão.

Performance continua a ser decisiva

Mesmo assumindo que a tecnologia funcione de forma fiável, permanece o filtro da performance. O ciclismo profissional opera num nível em que pequenas variações contam. Assim, qualquer equipamento adicional no tronco influencia a ventilação, a gestão térmica e o perfil aerodinâmico. Além disso, pode interferir com rádios e dorsais.

Consequentemente, para ser adotado de forma generalizada, o benefício médico teria de ser claro e mensurável, sem penalização competitiva evidente. Historicamente, este é um padrão de prova elevado e demorado no ciclismo.

Segurança reativa versus segurança preventiva

É importante também olhar para o enquadramento mais amplo. Nos últimos anos, vários avanços relevantes na segurança do ciclismo vieram de fora do corpo do atleta.

Por exemplo, a melhoria de barreiras, a remoção de obstáculos perigosos, a revisão de finais de etapa e a evolução dos capacetes tiveram impacto direto na redução de consequências graves.

Nesse sentido, estas medidas são preventivas. Já o airbag vestível é, por definição, uma solução reativa, atua depois de algo já ter corrido mal. Logo, pode reduzir a severidade de determinadas lesões, mas não altera a frequência das quedas.


Mais informações:
www.aerobag.eu
Autor do artigo:
André Canuto
Crédito das imagens:
AEROBAG
PUB
Cube Litening Air

Conta X Bikerumor
https://x.com/bikerumor/status/2016993481856569772

Conta X Capo Velo
https://x.com/CapoVelo/status/2017274745587138812

Também vais gostar destes!