O desenhador de percursos do Tour de França, Thierry Gouvenou, manifestou profunda preocupação com o aumento constante das velocidades no ciclismo profissional. Segundo o dirigente, a evolução do ritmo de corrida tem tornado a missão dos organizadores em garantir a segurança dos atletas cada vez mais complexa, num momento marcado por sucessivos incidentes na modalidade.
As declarações de Gouvenou à Road.cc surgem no seguimento de protestos do pelotão na Il Lombardia, onde os ciclistas atrasaram a partida em cinco minutos. O gesto serviu de homenagem ao jovem Finlay Tarling, de 19 anos – que perdeu a vida na oitava etapa da Volta a Portugal, em agosto, após ser abalroado por um automóvel que invadiu o percurso -, bem como de denúncia contra a falta de medidas de segurança por parte da UCI e dos organizadores.
“Consigo compreender os ciclistas; eles não sobem para as bicicletas com a intenção de ficarem incapacitados ou mortos. Compreendemos perfeitamente o seu ponto de vista”, declarou Gouvenou, confirmando que haverá reuniões no âmbito do grupo de trabalho SafeR. No entanto, o responsável do Tour alertou para a componente da velocidade nas provas modernas.
“As corridas evoluíram, os ciclistas andam muito mais depressa, o que torna significativamente mais difícil para as organizações protegerem o percurso. Nós, os organizadores, também estamos a pedir medidas para reduzir as velocidades”, apontou, deixando uma frase contundente: “Sou o responsável de segurança de uma corrida de bicicletas, mas não quero acabar a ser o responsável de segurança de uma corrida de motos. Neste momento, nas descidas, estas bicicletas comportam-se mais como motos do que como bicicletas.”
Gouvenou sublinhou igualmente os desafios logísticos e financeiros inerentes às corridas em estradas abertas, onde o comportamento do público nem sempre é o ideal: “Nenhum organizador pode garantir a 100% que não ocorra um incidente. A verdadeira natureza do ciclismo é desenrolar-se num ambiente aberto e não dentro de um estádio. Não é possível colocar um agente da polícia à frente de cada casa ou em cada esquina, e a humanidade, de forma geral, está cada vez menos respeitadora das regras.”
Os problemas de segurança têm-se acumulado no calendário recente. Na Tre Valli Varesine, uma mota da polícia circulou em sentido contrário e provocou a queda de Marcel Camprubí e Thomas Gloag, dupla da Pinarello-Q36.5. Na Coppa Bernocchi, uma carrinha de entregas da DHL entrou no trajeto e seguiu atrás da fuga, enquanto na primeira etapa do Eneco Tour foi avistada uma viatura a circular logo à frente dos fugitivos.
Apesar da criação do SafeR em 2023 – organismo independente que reúne UCI, ciclistas, equipas e organizadores para analisar riscos -, a eficácia das decisões continua sob debate. Em declarações no podcast Domestique Hotseat antes da Volta à Lombardia, o presidente da CPA, Adam Hansen, recordou que a entidade apenas pode recomendar alterações e não impô-las. Hansen citou o exemplo do Renewi Tour, onde os alertas sobre o piso degradado terão sido ignorados pela organização, resultando posteriormente em duas quedas.

