O AlUla Tour voltou a pôr o ciclismo profissional a falar em segurança, e a imagem não é bonita: numa descida feita a mais de 100 km/hora, deu-se uma queda violenta, houve corredores hospitalizados e, no meio disto tudo, surgiu uma frase que devia pesar mais do que está a pesar: “Estas velocidades são loucas”, dita por Fabio Jakobsen.
Importa sublinhar que este não é um comentário vindo de fora. Pelo contrário, é a opinião de um sprinter que já esteve à beira da morte depois de uma queda em corrida.
Quando alguém com esse historial fala de risco excessivo, convém ouvir. Ainda assim, a reação estrutural do sistema continua a ser lenta ou inexistente.
A etapa empurrou o risco para o limite
O problema não foi apenas a descida. Foi, acima de tudo, o contexto criado à volta dela. Um sprint intermédio colocado imediatamente antes de um troço rápido e técnico não é um detalhe de percurso; na prática, é um convite claro para o pelotão se esticar antes de entrar numa zona onde o controlo é mínimo e as consequências podiam ter sido piores.
Nesse cenário, a margem para decisão racional reduz-se drasticamente. Ou seja, o desenho da corrida condiciona o comportamento do pelotão muito antes de qualquer erro individual.
Ninguém está preparado para estes cenários
Quando se ultrapassam os 100 km/hora numa estrada aberta com vento, irregularidades e dezenas de ciclistas à volta já não estamos a falar apenas de performance.
Estamos, antes, a falar de sobrevivência. A tecnologia aumentou a velocidade média do pelotão, mas a adaptação dos percursos e das zonas críticas não acompanhou esse salto.
As quedas que resultaram desta etapa não foram fruto de amadorismo ou de distração individual. Pelo contrário, foram a consequência previsível de um ambiente onde a soma de fatores de risco foi ignorada.
Entretanto, o ciclismo é cada vez mais rápido, o material cada vez mais eficiente e os dados cada vez mais precisos. No entanto, o desenho de algumas etapas continua preso à lógica de que “quanto mais duro e espetacular, melhor”.
Do espetáculo ao limite da irresponsabilidade
Existe, porém, um ponto em que o espetáculo deixa de ser desporto de alto nível e passa a ser “roleta russa”: descidas rápidas sempre fizeram parte do ciclismo e o perigo nunca foi zero.
Ainda assim, há uma diferença clara entre aceitar o risco inerente ao desporto e fabricar cenários onde o erro deixa de ser humano e passa a ser inevitável.
A responsabilidade
O pelotão já mudou. Hoje, os corredores falam mais, organizam-se e questionam decisões. Mesmo assim, continuam presos a um sistema onde dizer “não” em corrida não é uma opção realista. Por isso, a responsabilidade não pode cair sobre quem está em cima da bicicleta.
Ela está, sobretudo, em quem desenha os percursos, aprova os traçados e vende a imagem de corrida épica enquanto fecha os olhos ao risco acumulado. Se nada mudar, a repetição não será uma surpresa mas sim uma consequência.
| Crédito das imagens: | |
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| Autor do artigo: | |
|---|---|
| André Canuto |



