A procura por novos patrocinadores transforma-se por vezes em autênticas novelas, com vários capítulos a passarem até que finalmente haja um final, nem sempre feliz. Algumas equipas do World Tour estão a começar a “tremer” ao ver os seus patrocinadores enfrentarem dificuldades devido a uma nova crise económica, que a pandemia provocou. A CCC e a Mitchelton-Scott são neste momento o principal centro das atenções.

No caso da equipa polaca, dois anos depois de Jim Ochowicz ter encontrado uma solução que parecia dar nova estabilidade após a saída da BMC, tudo mudou com o covid-19. A empresa que comercializa, por exemplo, sapatos, teve uma redução substancial nas vendas. Apesar de ter uma equipa World Tour ser um sonho antigo do dono Dariusz Milek – que já patrocinava uma formação do segundo escalão -, a realidade financeira interrompe esse sonho. O empresário polaco vê-se obrigado a terminar precocemente um contrato, que tinha ainda mais um ano de duração. E a perspetiva sempre foi de prolongá-lo, as a CCC sai de cena.

No entanto, Ochowicz e a sua Continuum Sports podem estar perto de encontrar uma solução e do final feliz desejado. Curiosamente poderá passar novamente por ver uma equipa do segundo escalão aproveitar para ficar com uma estrutura e licença do World Tour. A americana Rally Cycling tem crescido em anos recentes e subir à categoria principal é um objetivo.

A relação que durou seis dias

Para já, estas eventuais negociações estão no segredo dos deuses, ao contrário do que acontece com a Mitchelton-Scott e a Manuela Fundación. Na sexta-feira foi anunciado um acordo entre a equipa australiana e a fundação espanhola. A estrutura adoptaria de imediato o novo nome, foi apresentado o equipamento e um dos responsáveis da fundação, Emilio Rodríguez, afirmou que o plano passaria por levar a equipa para Granada, sede da Manuela Fundacíon e terra de Francisco Huertas, empresário e mentor deste projeto.

Assim, em 2021 a equipa seria espanhola, ou pelo menos seria essa a intenção. Quem não gostou foi o atual dono da Mitchelton-Scott. Esta quarta-feira, Gerry Ryan deu uma entrevista ao Ride Media, deixando bem claro que ele é que é o dono e que a equipa tem uma licença australiana. Ryan foi mais longe ao dizer que houve uma precipitação no anúncio do acordo de 5 de junho por parte da GreenEdge (detentora da equipa), pois continuava em negociações com outros potenciais patrocinadores para a próxima temporada.

As declarações apanharam desprevenidos os responsáveis da Manuela Fundación, que ainda assim acreditavam que tudo se resolveria. Mas não. Esta quinta-feira a GreenEdge divulgou um comunicado a afirmar que afinal não há acordo.

“Inicialmente sentimos uma forte conexão com o senhor Francisco Huertas, a Manuela Fundación e os seus nobres objectivos. Contudo, à medida que as negociações evoluíram após o anúncio inicial na sexta-feira, concluímos que a relação não irá continuar”, explicou Gerry Ryan, no referido comunicado.

A equipa foi uma das que cortou nos ordenados dos ciclistas, tanto da equipa masculina, como na feminina, durante a paragem forçada de temporada. Porém, Ryan deixou a garantia que os valores serão restabelecidos quando a competição regressar em agosto.

Entretanto mantém-se a procura por patrocinadores que assegurem a continuidade deste projeto para 2021, sendo esta uma estrutura que surgiu em 2012 e que já conquistou várias vitórias importantes, com inevitável destaque para a Volta a Espanha de 2018, por intermédio de Simon Yates, e o monumento Milano-Sanremo logo em 2012, com Simon Gerrans.

Manuela Fundación descontente com quebra de acordo

Manuel Calvente, diretor da equipa de sub-23 da Manuela Fundación, é que não só não compreende este final abrupto de um acordo que garante ter ficado fechado a 5 de junho, como alega também que a Mitchelton-Scott não tem dinheiro para pagar os ordenados.

Ao Cyclingnews contou ainda: “Os autocarros da equipa estão na oficina, já sem as cores da equipa e à espera da nova publicidade e autocolantes. Até recebemos fotografias a mostrar como estava tudo a decorrer.” E acrescentou: “Saímos disto a parecer que somos os vilões do filme, quando não fizemos nada que não tivesse sido acordado.”

Lotto Soudal, Bahrain-McLaren, Astana, EF Pro Cycling (equipa do português Ruben Guerreiro) são outras equipas que se viram obrigada a cortar nos salários durante a paragem, mas a sobrevivência para 2021 não estará em causa, principalmente se a época for mesmo retomada a partir de agosto.